A Senhorita Honey É Lésbica e Eu Não Faço As Regras

Como vocês sabem, eu sou parte de um sistema (isso ocorre quando você tem OSDD ou DID) e eu sou apenas uma das pessoas que existem nesse cérebro, devido a algum trauma de infância provavelmente sexual, mas que eu não me lembro de absolutamente nada. Tendo isso em mente, eu sofri um trauma posterior aos 13 anos de idade com um crush em uma amiga da época. Thalia se desenvolveu em volta da minha atração feminina na época; hoje, esse alter ego tem 13 anos, assim como eu tinha, e ela é a monstrinha lésbica que sempre aparece quando um sentimento intensamente romântico invade o sistema. Esse é o principal gatilho que a faz frontar, em vez de mim, que geralmente estou "na frente". 

Essa informação pode parecer inútil, mas ela é importante pra que você, leitora, entenda que esse artigo não é só sobre um filme que foi "desidentificado" pela comunidade lésbica, mas tem uma dimensão bastante pessoal para meu sistema, meus traumas e, obviamente, minha sexualidade como um sistema (porque pessoalmente como anfitriã, eu sou assexual, apesar de eu me apresentar como lésbica para pessoas em geral). Por favor, leia avisada de que você verá esse filme pelas minhas lentes problemáticas de vida.

Vamos começar pelo começo do meu questionamento pessoal sobre o filme.

Tudo começou com um curto vídeo que fez a Thalia (alter ego de 13 anos) explodir. Um vídeo de "Matando Matheus a Grito", um YouTuber gay que decidiu fazer um vídeo sobre crushes que os inscritos LGBT tiveram na infância. Mas Thalia não precisou de tudo isso para frontar. A única coisa que precisou acontecer foi ver a Senhorita Honey na thumbnail do vídeo (inclusive, eu não me lembrava de mais ninguém na thumbnail).



Como a Thalia faz frequentemente, ela saiu pulando e decidiu beber água para se deliciar com a ideia do vídeo e não com o vídeo em si. Ela estava nas nuvens. E, finalmente, ela clicou no play. Assistindo esse vídeo por mim mesma, foram apenas alguns segundos sobre a personagem, mas a Thalia assistiu como se fosse um vídeo maravilhosamente longo, mesmo essa não tenha sido a realidade. Por mais que o vídeo seja extremamente casual e engraçado, não foi assim que a Thalia se sentiu, afinal, ela fronta quando existem sentimentos românticos fortes, como ela tem por Kara Danvers, Villanelle, minha melhor amiga aos 13 anos e crushes que tem que passar do nível de atração básica, simples e fraca. Ou seja, de alguma forma essa personagem é importante para a "sexualidade do sistema" por ser tão antiga. E isso me deixou extremamente incomodada, porque a Thalia foi contar para a minha mãe o quanto era normal que crianças lésbicas se apaixonassem pela Senhorita Honey, e o quanto ela "não se sente mais estranha por isso". Essa fala me fez pensar se a Thalia veio desse crush específico porque alguém me reprimiu ou algo do tipo, ou se a atração dela pela professora Honey é mais do que um simples crush de infância. 

No vídeo, o Matheus faz o comentário de que ele sempre viu a personagem como lésbica, e ele lê a mensagem da fã que sugeriu Senhorita Honey como parte da lista.



E eu vou começar esse deep dive com o axioma de que as pessoas "tem a impressão de que Senhorita Honey é lésbica". Se você não concorda com o fato de que algumas pessoas acham que a Senhorita Honey poderia ser lésbica, eu sinto muitíssimo, mas esse artigo não é pra você. 

Vou começar com o óbvio, o que as pessoas geralmente citam como prova de que algum personagem é secretamente LGBT: ser codificado dessa forma ou ser feito por atores LGBT. Para mim, o tipo de argumento mais forte é sempre a codificação, porque atuar é fingir e não ser quem você é na realidade. Mas se o personagem não é codificado como LGBT, então como crianças entenderam essa personagem como lésbica, já que a audiência não tem como saber que a atriz é bissexual? Senhorita Honey é o arquétipo da mulher perfeita: magra, branca, feminina, não-ameaçadora, conservadora, amorosa e assexual. Ela simplesmente não é codificada como homossexual.

Saindo um pouco do axioma inicial, é preciso dizer que em termos práticos, a personagem deve ser lida como assexual. Devido a sua falta de interesse por qualquer figura, seja masculina ou feminina. Mas existe uma leitura lésbica em viver sem um homem. Numa sociedade binária e conservadora (infelizmente), se você não é hétero, você é o outro. E esse outro, é o h-o-m-o-s-s-e-x-u-a-l. Mas o pensamento conservador inconsciente é justamente o que se precisa analisar na codificação dos personagens. Se você vai para um lado muito prático do que seria a sexualidade da professora Honey, ela seria simplesmente assexual, apesar de essa não ser a leitura da audiência. É preciso ser consciente das impressões do público.

Agora, explorando o filme em volta da personagem, e não a personagem em si, a Matilda é fundamental para essa discussão porque ela é a protagonista e a personagem pela qual a audiência vê os acontecimentos do filme. Mais uma vez, não tem como a audiência saber que a atriz mirim é bissexual (principalmente quando ela não sabia disso na época). Sendo assim, precisamos ler o código da personagem e, estranhamente, seu relacionamento com a professora Honey. 

Matilda é a menina prodígio, a personagem forte que enfrenta seus abusadores e tem superpoderes. Como já foi afirmado várias vezes, superpoderes podem ser um paralelo a minorias e o poder que elas não têm para enfrentar o mundo, como se fosse um tipo de fantasia. Frequentemente existem codificações de lesbianismo no supernatural, apesar de apelar mais para bruxas e vampiras. Porém, não é como se a cena em que a Matilda aterroriza Trunchbull em sua casa não fosse fantasmagórica. Matilda também tem a leitura do masculino por causa de sua inteligência. Em uma cena que Matilda sabia a resposta de uma conta demorada de matemática, seu pai a castiga por ser esperta, enquanto o irmão seria recompensado (se ele fosse tão esperto quanto Matilda). Porém não é muito frequente que nós procuremos leituras de gênero e sexualidade em crianças, porque somos mais flexíveis com a expressão pessoal delas do que somos com adultos. Pelo menos não era assim nos anos 90, ao contrário do pânico-trans de conservadores iniciado no final dos anos 2000, em que as crianças estão cada vez mais sexualizadas e a emergência de que elas caibam em expressões de gênero binários designados ao nascimento está muito mais clara. Mas isso é uma tangente. O ponto é que a expressão de gênero de Matilda não importa para a interpretação da sexualidade de Jennifer Honey, apesar da inteligência e superpoderes de Matilda serem fundamentais para tal leitura.

Existe uma cena no início do filme em que o Narrador diz: "quando ela tinha dois anos, Matilda aprendera o que a maioria das pessoas aprende aos 30: como cuidar de si mesma" e vemos essa chocante edição de uma menina que sabe como funcionar perfeitamente, como um adulto capaz faria. O resultado dessa apresentação é que vemos Matilda como uma adulta e quando, posteriormente, os poderes dela são revelados, a reação da audiência é acreditar que a Matilda consegue se cuidar e enfrentar seus pais abusadores, o que faz sentido, já que os superpoderes são dados a quem não tem poder, como já discutimos. Então, quando somos apresentados à professora da Matilda, como uma mulher infantil e temerosa, é como se Matilda e Honey estivessem no mesmo patamar. Quando a professora chama Matilda para ir na casa dela, é apenas normal que ela não seja capaz de machucá-la e Matilda saiba perfeitamente como se proteger (devido a sua inteligência e poderes). A maioria das cenas entre as duas são de igual para igual, de forma que confiamos mais na Senhorita Honey que nos pais da Matilda que se veem como no topo da hierarquia, ao contrário de Honey. É como se déssemos permissão para que Matilda consinta ir ou não à casa dela.
"E para aqueles que falam do conceito de suicídio [do pai da professora], Senhorita Honey reconheceu que a Matilda é muito mais sábia que uma criança de seis anos média. E também, ela não sentiu a necessidade de ser paternalista sobre esses assuntos. Alguns iriam argumentar que é necessário ser claro sobre essas coisas com crianças  -  pra que eles entendam o assunto."



Nesse sentido, Matilda cuida de Honey mais frequentemente do que Honey cuida de Matilda. Na maioria do filme, Honey só tem um poder: ser uma adulta. E isso é mostrado na cena em que Trunchbull agarra seu braço e ela responde com "eu não tenho mais sete anos". Isso não é uma resposta muito convincente, afinal, adultos quebram mais o braço de outros adultos do que de crianças, mas essa cena mostra duas coisas: que Honey sabe o que é abuso e de que ela não toleraria atitudes do tipo. Ela pode evitar violência física "justificada" (como em violência por "educar"), evitar morar na mesma casa que sua abusadora, pedir encarecidamente que Trunchbull não jogue crianças da janela, e adotar Matilda. Enquanto isso, Matilda arranja os papéis de adoção, rouba de dentro da casa da diretora, vinga o pai da professora e EXPULSA A DIRETORA DA CIDADE. E isso é importante porque só ajuda a audiência a ver como é que Matilda sabe o que está fazendo. A ideia de elas estarem no mesmo nível é ainda reforçada pela atriz da Senhorita Honey estar sempre na mesma altura que Matilda, a pedido da direção, enquanto outros adultos estão sempre mais altos que ela.






Pesquisando sobre esse assunto na Internet, eu achei um tipo de stand-up sobre a professora Honey e eu simplesmente não posso ignorar um ótimo argumento: um dos prováveis fatores para a atração fodida que sapatinhas tinham na Honey são os olhares que ela dá para a câmera, sem dúvida.
 
 
Mas existe ainda um outro ponto a se fazer: Trunchbull. Sabe todas as coisas que não foram colocadas na Miss Honey e que podem ser interpretadas como material sapatônico? Então, essa seria ela... ou ele, se estamos falando do teatro.


Ela é masculina, gorda, velha, perseguida por fantasmas e assassina. É como se lesbianismo fosse um conceito completo separado em duas partes: uma parte dada a Trunchbull, a outra parte dada a Honey. A parte feia, que muitas lésbicas têm vergonha de ser, seria a Trunchbull e a parte bonita, que não é desejável por si só, mas é a representação "limpa" por assim dizer é a parte da Honey: assexual e feminina. E essa tese pode ser ainda mais aprofundada quando você cogita que Trunchbull abusa de crianças. Fisicamente, claro, mas também é dado a entender de que ela tenha abusado sexualmente de Honey quando ela tinha a idade da Matilda. Essa teoria conservadora de que "lésbicas têm uma sexualidade não-normativa porque algum trauma sexual lhes ocorreu", assim como a crença de que "todos os LGBTs são pedófilos" pode ter criado essa dicotomia virgem/puta, mas trazendo ela para a interpretação lésbica. Causando um tipo de "exorcismo" da ideia da lésbica diabólica e "permitida" a ver Honey como a lésbica pura, afinal, ela é a vítima do lesbianismo (abuso) e não seu causador. 

Na cena em que é mostrada a infância de Honey, tem uma parte que a Trunchbull segura o ombro dela, como um tipo de dominação. E considerando a dissociação que ela tem quando ela termina a história, seja lá o que aconteceu, foi um trauma. E, aparentemente, esse sentido de abuso se dá a entender no livro também. Não foi à toa que o aviso "eu não tenho mais sete anos" indica mais do que abuso físico, foi um conhecimento do que é ou não é abuso. E isso é ameaça o suficiente já que predadores sexuais contam com a ignorância da vítima.

"Eu achei a história da Senhorita Honey incrivelmente sombria também. Outra pessoa já postou aqui a um tempo como ela se perguntou se a Senhorita Honey tinha sido sexualmente abusada pela Trunchbull. Enquanto eu entendo como fato que Trunchbull era fisicamente abusiva com a Senhorita Honey (o livro vagamente menciona isso), eu tive que me perguntar se abuso sexual aconteceu também, mesmo que tenha pouca evidência para apoiar isso no filme ou no livro. Incrivelmente sombrio para algo que essencialmente é um filme/livro infantil"
"Só pela forma que Senhorita Trunchbull agarra o braço da Senhorita Honey sugere que ela poderia [ter abusado Honey].
Essa parte sempre me arrepiava quando eu era criança."

"Nunca é declarado no livro, é pra crianças, afinal, mas é sugerido que Trunchbull tenha abusado sexualmente de Senhorita Honey, ou, pelo menos, algo perto disso. Quando ela está contando a Matilda sobre a infância infernal dela, ela menciona o abuso físico, emocional e verbal assim como 'coisas que eu não posso contar!' Talvez eu esteja lendo muito disso, mas conhecendo Dahl, eu acho que não. Isso só reforça o quanto de coragem que ela [Honey] tem para enfrentar sua agressora"



Eu sei que esse assunto é bastante pesado, mas eu não quero sair daqui sem falar dele e fingir que não foi retratado no livro, por que, de certa forma ele é importante pra mim. Não só a Matilda, que é a menina poderosa, conseguiu fugir das garras dos seus abusadores, mas a Honey, que não tem poderes, conseguiu também. O fato de que ela é lida como lésbica por outras pessoas me traz um motivo pra uma alegria inegável. 

Para mim, o argumento que eu escrevi alguns parágrafos acima de que o relacionamento entre Honey e Matilda pode dar uma impressão de romance é uma afirmação a mais, em parte por essa ter sido minha interpretação na época (um desejo infantil reprimido) e, por outro lado, minha vontade de fugir da minha família e viver minha própria aventura. E, pra mim, a última cena do filme mostra justamente o relaxamento que a minha mente gostaria de ter. É como se meus traumas e meus desejos se misturassem em um lindo sonho. Eu sendo a Honey, mas ao mesmo tempo sendo a Matilda, com memórias que refletem meu passado e desejando que meu futuro seja como o presente delas: viver com uma nova família, poder respirar pela primeira vez.

"O enredo em si mesmo rejeita a heterossexualidade inteiramente, focando no que pode ser gerado entre mulheres e garotas: uma garota marcada como diferente por causa de seus conhecimentos prodigiosos e poderes telecinéticos, Matilda deixa seus pais abusivos para viver com sua professora, Senhorita Honey, formando uma família de dois. Enquanto o relacionamento das duas é inquestionavelmente não-romântico, a ênfase, de qualquer forma, provê um espaço para garotas queer fantasiarem uma vida onde elas são alegremente amadas por outra mulher."



"Atrás da estética gloriosamente excessiva, falas absolutamente icônicas e uma pitada de mágica, o conto de Dahl nos conta como é normal que crianças e adultos igualmente escondam dor embaixo da superfície. Para pessoas LGBT+ procurando sua tribo, Matilda é um lembrete de que a família que nós escolhemos pode ser mais valiosa do que a família em que nascemos - e que bondade é o presente mais valioso de todos."


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