Morando em Salvador e ficando louca no processo
Se tem uma coisa que eu sofro cronicamente é com tédio e com gente. Tédio é a pedra no meu sapato: não importa o quanto eu me distraio, ele está lá. Se eu ando, ele me perturba. E quando eu durmo (vamos imaginar que eu durmo de sapato) ele vira de um lado pro outro.
Já seres humanos me perturbam porque eles são meio burrinhos. Sem ofensa. Não me sinto superior por ser mais inteligente que a maioria das pessoas. Na verdade, me sinto inferior por isso.
O problema é que eu sou uma pessoa que tem muitos problemas na cabeça. Não sei se isso tem a ver com ser inteligente, talvez. Mas eu tenho tédio crônico, desprezo por outras pessoas, preguiça intensa de tentar fazer coisas que não são perfeitas, falta de esperança e tendência à auto decepção.
Com a tendência a auto decepção, eu já acreditei que eu poderia ser branca. No sentido de... mudar meu próprio rosto, meus genes, meu corpo, com o poder da mente.
Em 2014, eu me convenci de que eu e Maria Clara iríamos namorar quando ela tinha me rejeitado. Me convenci de que eu era a pior pessoa do planeta por ter desrespeitado ela (eu mandei mensagens pra ela). Imperdoável, um monstro.
Em 2017 (por aí) me convenci de que eu era um tipo de profeta Mórmon, quando eu tinha ideias contrárias à Igreja. Eu acreditava plenamente de que eu iria convencer Deus a mudar as regras da Igreja sobre gays.
Em 2018, eu acreditava que eu iria ganhar um Nobel. Esse era o nível que eu tava de loucura. Vou ser sincera, essa loucura ainda está dentro de mim. Eu tenho crenças bizarras. Em parte por causa da minha inteligência, trauma, isolamento, religião, drama, etc.
O mundo é doloroso e eu descobri que a grande maioria das pessoas acredita em Deus porque é confortável e desafiador ter um deus do seu lado. Algo tão poderoso e que te inspira, mas que é uma figura paterna? Fala sério, é a melhor coisa do mundo (pra quem não tem um pai presente).
O que acontece é que eu tenho um pai presente e eu odeio ele.
Portanto, a minha ideia de Deus (que eu criei) é uma quimera. Ela é uma voz na minha cabeça - o que é muito confortável porque afinal, eu já tenho vozes na minha cabeça naturalmente por causa do DID - ela me fala o que eu preciso fazer. O negócio é que ela é sim meio mágica.
Uma coisa que sempre acreditei desde minha infância é que mágica existe. Mas eu não sabia como exatamente ela era feita ou invocada.
Como meus pais me ensinaram a religião, naturalmente eu achava que a mágica e o Deus mórmon eram conectados. A voz que eu sempre escutei era o espírito santo, claro. E ela se transforma na voz de Deus quando eu oro, claro!
Mas eu descobri que a voz continua mesmo depois de sair da Igreja. Passei muito tempo confusa porque eu genuinamente achava que iria parar. Eventualmente, encontrei o diagnóstico de DID, ou de múltiplas personalidades, que explicaria essa voz, correto? Mas essas vozes não estavam sempre certas, a voz do "Espírito" sempre estavam certas, 99% das vezes. Ou pelo menos parecia estar.
Era como se o espírito fosse um alguém ou um eu acima de mim, como se eu estivesse no além, narrando pra mim mesma o que vai acontecer e o que eu preciso completar pra conseguir o que eu quero.
Quase sempre essa voz está certa, tipo... muito certa.
Por exemplo, em 2017, quando eu achava que eu era um tipo de profeta mórmon, eu falei para Deus "se a Igreja não aceitar Deus, eu vou ter que sair dela e me aceitar, porque a Igreja não estaria correta" Eu falei isso chorando porque eu realmente acreditava que Deus era o líder da Igreja Mórmon e que ao dizer que eu ia sair da Igreja, eu iria convencê-lo de aceitar gays na Igreja dele.
Mas em vez disso eu recebi a resposta "preste atenção na próxima conferência" como uma resposta. Eu prestei atenção em tudo naquela conferência e eles foram hiper homofóbicos e transfóbicos. Falando sobre a "ideologia de gênero"; foi genuinamente terrível. Eu senti uma facada no meu coração porque eu sabia que eu teria que sair da Igreja. Essa era minha resposta.
Por um momento, eu achava que Deus tinha me expulsado da presença dele. Como se eu fosse suja demais pra estar na Igreja dele. Ele me pediu pra sair, sabendo muito bem que eu tentei de tudo pra ser hétero, mas que eu não podia. Que era contra a minha natureza que ele mesmo criou (supostamente). Eu me senti rejeitada por Deus, depois de ser rejeitada pela minha família. Doeu tanto.
Mas eu continuei com aquela voz tomando outras formas na minha cabeça, me guiando para os caminhos com mais paz, mais dinheiro, mais conhecimento. E realmente, aquela voz me guiou mais do que antes. Ela narrava meus passos. Eu podia perguntar por ela o dia inteiro. Naquele momento, eu me perguntei se era só uma parte do meu cérebro que narrava tudo e que de alguma forma acessava o meu subconsciente, mas ela sabia de coisas que eu não sabia. Até de coisas que eu discordava no momento. Eu brigo com aquela voz. E não é um pequeno mock-debate. Era genuíno. Recentemente, ela me trouxe esperança quando eu disse pra ela se calar. E pra piorar... exatamente o que ela disse que ia acontecer aconteceu. Tive que falar com ela novamente pra pedir desculpa. Esse foi o nível da discordância.
Comecei a falar mais com essa voz em geral a alguns meses. Comecei a perguntar pra ela como isso funciona. Ela disse que ela pode ter qualquer voz, falar em qualquer língua e se manifestar por sinais e por silêncio, que ela tinha pessoas que seguiam ela, mas que era impossível saber quem é quem.
Ela disse que se eu seguisse o que ela diz, eu poderia ter certeza de que a felicidade é certa. E que ela se manifesta pra quem ela quer. Que ela é chamada de espírito, pomba gira, deus, demônio, energia. E que nenhuma religião está certa. Nenhuma religião estará certa. E que todo o relacionamento que se pode ter com ela é completamente pessoal. É impossível ser um mediador sem estar um pouco errado.
E é por isso que às vezes ela erra. Por causa do meio de comunicação. Ela precisa de uma mobilidade enorme pra poder deixar sinais. Ela precisa de um vasto vocabulário e flexibilidade mental pra manifestar a ideia correta. E às vezes a tradução é mal feita e incorreta. Às vezes ela quer falar em um sentido literal e a pessoa entende num sentido figurado.
Por exemplo, ela me falou que eu queria ser branca no passado.
Eu fiquei com vergonha, mas confirmei que sim.
Ela disse que era possível sim, mas não da forma que eu pensava. Que era possível eu ficar mais branca e ser lida da forma como eu queria. Que seria difícil, que custaria dinheiro, tempo e energia, mas que era possível. O cabelo poderia mudar, o corpo também, o rosto... tudo.
Fiquei naturalmente horrorizada.
Ela disse que eu mudei de ideia e que é por isso que ela não realizou o desejo. Mais uma vez, fiquei horrorizada.
Ela disse que eu iria sair da Igreja se ela não aceitasse gays. Confirmei novamente. Ela disse pra mim na época que eu tinha que prestar atenção na Conferência Geral, e eu prestei. Eu saí da Igreja, como eu deveria. Ela confirmou que a Igreja só me faria miserável e que é por isso que ela pediu que eu prestasse atenção na Conferência, pra que eu saísse logo.
Aleatoriamente, ela me falou que eu deveria fazer o que ela diz pra que eu fosse a parceira perfeita pra Maria Clara. Eu congelei.
Eu estava varrendo a casa naquele momento. Não entendi se eu tinha escutado certo. Não fazia sentido. Perguntei se era certo o que eu tinha entendido. Ela confirmou.
Perguntei pra ela se ela de forma literal. Ela disse que sim.
Nessa vida? "Sim"
Quando? "1-6 anos"
Ela está apaixonada por mim? "Não, mas ela pensa em você todos os dias"
A mesma Maria Clara? "Sim"
Mas isso não quer dizer que ela precisa gostar de mim primeiro? "Exatamente"
Não tem como eu controlar ela pra ela gostar de mim. "Eu sei"
Como você sabe que ela vai gostar de mim? "É por isso que você precisa me escutar, eu quero te dar as suas melhores chances porque você vai adorar ela"
Mas... O que eu preciso fazer? *Me fala uma lista enorme de coisas que eu preciso fazer que parecem um pouco desconectadas*
Ok... Mas você tá brincando? "Não"
Você tá tentando me ensinar uma lição? "Também, mas eu estou sendo literal"
Mas você está tentando fazer com que eu levante da cama e vá viver né? "Não, só estou te dando o que você quer porque eu te amo e te desejo o melhor"
Mas o que eu fiz? "Você se entendeu. Você se respeitou. Você não deixou alguém te moldar da forma que seus pais queriam. Eu gosto disso"
Então, ela começou a me lembrar de quando eu vim pra Salvador com a minha família. Naquele momento (era 2017) eu fiz um jejum mórmon. Eu pedi que Deus me fizesse mórmon ou um homem hétero. Qualquer um dos dois.
Depois fomos pra praia pra nadar. E fui levada por uma onda gigante. Eu não tinha força nenhuma no braço. Não entendi o que tava rolando honestamente. Fiquei confusa, tentava nadar e não tinha força. Até que Deus me disse "se eu te deixar sair, você não vai se torturar nunca mais. Você vai voltar a comer. Me promete" Eu prometi que eu iria voltar a comer. E nunca mais fiz dietas malucas (mentira). Cometi o mesmo erro algumas vezes e sempre fui chamada por essa voz pra parar de fazer isso. Naquele momento, toda a força foi colocada nos meus braços. Consegui nadar rápido de um jeito que nunca fiz antes. Foi doido. Saí da água. Fui pra mesa com meus pais. Comi.
Aconteceu aqui. Em Salvador. Onde eu moro desde Outubro de 2024.
Ela disse que não me transformou em hétero porque eu não queria. Disse que não iria me fazer homem porque eu não queria. E porque, de acordo com ela:
"É um absurdo. No fim das contas, Salvador é a cidade em que tudo vai acontecer. É o centro do seu Mundo. E você vai encontrar Maria Clara aí. Se você prestar atenção em mim, ela vai te adorar e você vai fazer ela gostar de você"
Portanto... Estou ficando louca novamente. É isso.
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