Fleabag: Depressão e Feminismo Branco

Antes de ontem, eu escrevi um artigo sobre Supergirl partindo o meu coração. Nele, eu disse que existem séries que representam mulheres lésbicas com mais respeito, como Fleabag. Acontece que bem na primeira cena, é possível ver que a principal não é lésbica. Pelo menos, não a definição tradicional da palavra. Sendo assim, assumi que a principal era bissexual.

Logo no segundo episódio (acho) ela flerta com uma mulher bêbada que confunde ela com um homem. Que bom que nada aconteceu porque isso é estupro. Mas, não se preocupe, ela é feminista. Apesar de ela achar que se ela tivesse tetas maiores, ela não seria TÃO feminista, nas palavras dela.

A primeira temporada gira em torno do fato da amiga da principal ter morrido atropelada. A história é: ela se matou porque o namoradinho dela dormiu com uma outra pessoa. E adivinha quem tem problemas com sexo? Fleabag! Então foi ela que dormiu com o cara e, indiretamente, fez a amiga se matar. Meio que cai a ficha na metade da temporada, é só juntar os pontos.

Mas, não, aparentemente. Isso se torna um grande plot twist no último episódio da temporada, como se a audiência não soubesse. O que me deixou muito confusa porque eu, geralmente, sou última pessoa a entender qualquer plot twist. Se eu notei, é porque todo mundo notou, não é possível.

O motivo pelo qual eu assisti até o fim da segunda temporada foi por causa dos diálogos, que são extremamente bem escritos. É engraçado e casual. Mas o motivo que eu primeiramente cliquei na série, foi por causa do lesbianismo prometido no trailer. Até o episódio em que eu estava assistindo, ela já tinha transado com vários homens, mas nenhuma mulher... até que em uma cena de bar, ela beija uma belíssima sapatão. Foi só isso. Porém, para não me brochar completamente, aconteceu um diálogo ótimo antes do beijo, não a parte sobre como mulheres são definidas por seus sistemas reprodutores (o que não só é machista quanto transfóbico), mas a parte que a sapatão pergunta para a Fleabag se ela é lésbica e ela responde "não exclusivamente", resposta essa que coube exatamente com o que eu pensei ser a identidade da personagem principal, na primeira cena da série, enquanto um homem comia o cu dela.

Amei o conceito de lesbianismo não-exclusivo. É uma interpretação interessante de bissexualidade. Claro que não para todas as mulheres bissexuais, já que algumas não gostariam de ser associadas a ideia de "quase gay", uma leitura esteriotipada da bissexualidade. Mas para muitas mulheres, incluindo yours truly, essa é a exata definição. E para a principal também, o que eu amei por me sentir representada.




Outro aspecto interessante, já explorado em outros seriados e filmes que eu assisti, é a constante conversa com a câmera, até que você não sente mais que seja um aspecto relevante. É como se acontecesse uma normalização da quebra da quarta parede. Você se sente ainda mais próxima da protagonista.

Apesar de terem tantos elementos prazerosos nessa série (no pun intended), eu ainda fiquei bastante frustrada. Não só pela ausência de atividade lesbóidica, mas também com o feminismo raso da série. Vários comentários transfóbicos ou, pelo menos, bem cisnormativos; além das únicas pessoas de cor do seriado serem homens que a personagem principal se interessou sexualmente e a lente feminista da série focar na vida de mulheres brancas ricas, sem nunca trazer a tona o fato de que a maioria das mulheres não são assim e não vivem essa vida.

Feminismo, my fellas, raso como um poça.

Agora, a parte depressiva.
Traumas são reais. Bom dia.

Nessa parte, eu me identifiquei muito.

Sofrer um milhão de traumas que todas as pessoas ao seu redor não entendem é uma situação que eu passo, todos os dias. E o problema é que você só calhou de ser azarada, sabe? A sua família poderia te ajudar, mas ela escolhe não fazer isso. O que ela faz, porém, é jogar os problemas na sua cara, piorando ainda mais a situação.

Você se isola, você se odeia, você não consegue ligar o suficiente pra viver de forma saudável. Você desenvolve hábitos péssimos e você não tem relacionamentos profundos porque... traumas precisam ser guardados e vulnerabilidade é pra pessoas não auto confiança, não você. Absolutamente relatable.


Em geral, eu concordo com a série. Realmente, mulheres brancas ricas podem viver relacionamentos abusivos. Sim, homens normais são justamente o problema, já que eles oprimem, mesmo sem serem lidos assim. Wow, mulheres são atacadas até por outras mulheres, sendo misoginia a arma. Chocante, homens têm a última palavra até quando as mulheres tomam atitude. 

Não é muito surpreendente, a não ser como uma cápsula do tempo. Se a proposta do seriado fosse essa, eu entenderia. Uma mulher do século vinte um, tem sua vida afetada por ser ateísta, feminista e traumatizada. Uma leitura dos tempos em que vivemos, realmente. Mas eu não sei se essa é a proposta. Eu simplesmente não entendo essa série. Será que muitas mulheres só se sentem válidas por meio de sexo? Eu fui criada para pensar o contrário, então, eu simplesmente não entendo.

Em geral, eu gostei. Com muitas coisas frustradas e outras, pelo menos interessantes, eu apreciei a jornada da personagem. 

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