Vilões Nos Representam Mais Que Heróis

Vilões são legais e isso não é um hot take. Muitas pessoas, se não a maioria, concordam com essa afirmação. Vilões, muitas vezes, são os personagens mais amados pelo público, como o Coringa, por exemplo. E, como alguém muito interessada em política, eu acho esse fato extremamente instigante, já que muitas vezes, esses vilões são justamente as minorias ideológicas, raciais, religiosas, de gênero e de sexualidade.


Muitos liberais na minha faculdade comentaram que amaram o tal do filme do Joker, mas acham que é potencialmente perigoso. Quando eu perguntei para um deles o motivo, ele disse que a história do Joker pode ser lida como simpática pros Incels (que são adolescentes e homens jovens misóginos). Eu fiquei confusa, já que mostrar simpatia a essas pessoas não significa apoiá-los, principalmente no caso dos Incels, que são praticamente um culto de morte. É só pesquisar "black pill" que você sabe do que eu tô falando. Mostrar simpatia para jovens alienados numa sociedade capitalista que entram num culto É BOM. Se eles se sentirem entendidos, é meio que o primeiro passo para que eles se sintam melhor com a vida e não se matem.

É como se as pessoas que estivessem falando isso não quisessem entender que: se Incels são pessoas alienadas, eles são como eu e assim como o resto do planeta. O Joker é jogado de um lado pro outro, nunca é apoiado em quem ele é, ou no ele quer, e ele se sente vazio, assim como todo mundo. A história cativou os liberais por um motivo, a diferença é que eles imaginam que se o filme cativar os "malvados reais", tudo iria por água abaixo. Mas os Incels são parcialmente vítimas.

Caros liberais, compreendam que o próprio filme já mostrou pra vocês quem são os malvados reais: os capitalistas. São eles que mandam em você, é pra eles que você trabalha e eles tem todo o poder político e social. São eles que ditam a moda, as eleições e se você tem ou não comida na mesa. Mas apesar de anticapitalismo ser o ponto do filme, não é o ponto desse artigo.

Vamos começar a analisar de forma mais política vilões tão amados, para que então, eu possa apresentar o meu argumento final. Vamos, então, com a representação vilanesca da comunidade LGBT.

Lesbofobia/bifobia e misoginia em uma linda dança. Existe um conceito que mais realce o feminino do que lesbianismo? Mulheres que gostam de mulheres são representadas como mitológicas, místicas, bruxas, vampiras; de alguma forma não-existentes, conectando o conceito de lesbianismo em si ao supernatural e invisibilizando-nos na cultura ocidental atual.

A seguir: Dracula's Daughter (Carmilla), Mrs. Danvers (Rebecca), Morgana (Merlin).

Dracula's Daughter (1936) | Dracula, Horror, Vampire moviesMrs. Danvers, the Menace of Manderley – Once upon a screen…


Agora, vamos falar dos gays. Grande parte dos personagens codificados como gays estão ali para enganar jovens homens. Scar engana Simba, Jafar engana Aladdin, Hades engana Hércules. Isso pode ser ligado ao estereótipo e acusação de que homens gays são pedófilos e enganar meninos jovens é o que "eles fariam". Claro que muitas vezes, a feminilidade já é vista como algo a se temer, como é o caso de Moriarty, em Sherlock.


E os bissexuais? Muitas vezes, esse rótulo é dado a esses vilões tardiamente, depois de ativistas e fãs LGBT pedirem por um personagem da comunidade. Os escritores escolhem a bissexualidade justamente porque, na cabeça deles, essas pessoas têm uma vida inteira apenas gostando do sexo oposto até serem bis, do nada, no meio da fase adulta.

Frequentemente, esses personagens são os mais complexos anti-heróis, vilões hiper-cativantes ou heróis não-convencionais (como Constantine, Dead Pool e as Amazonas). 

Mas esses casos não são a maioria. Muitas vezes, são "escolhidas" para serem bis vilãs mulheres hipersexuais, para apelaram ao público masculino e hétero (como Mulher Gato, Arlequina e Hera Venenosa).




Agora, pessoas trans. Transfobia, misoginia e psicofobia misturados em um não é incomum. Muitos vilões são homens afeminados, mas frequentemente, os filmes de terror dão um passo a mais no medo profundo que nossa sociedade tem de pessoas trans, especialmente de mulheres trans, que são vistas como predadoras, além de degeneradas, é claro, e 'obsecadas' pelo feminino e a ideia do que uma "mulher faria", como se mulheres trans vissem todo o feminino como uma performance do original masculino: que seria o equilibrado, o justo, o natural. E é aí que vem a psicofobia: todas essas vilãs são assassinas. É impressionante. E pelo menos metade delas têm sintomas de  Transtornos Dissociativos, como se pessoas que têm DID e OSDD (que são transtornos causados por trauma) fossem violentas e quisessem atacar neurotípicos, e não o contrário.

A seguir, respectivamente: Norman Bates (Bates Motel e Psicose), Patricia (Fragmentado) e Buffalo Bill (Silêncio dos Inocentes).

Norman, Norma, Mother. Bates Motel season 5. | Netflix filmes e ...Just Norman Bates Things | Horror Amino
James McAvoy as Patricia in the film Split (2016) | Boys filme, FilmesThe Silence of the Lambs - Buffalo Bill | Cena de filme, Cinema e ...

Agora, vamos falar sobre um caso único, que sempre acaba voltando à cultura queer: como um homem gay, como uma mulher cis lésbica ou como uma mulher trans hétero. Úrsula, da Pequena Sereia, além de ela ser gorda, bruxa e de ser uma polva (o que é importante, se lembrarmos que as Sereias são a espécie normativa do filme) também é baseada em uma Drag Queen, chamada Divine.


Já está mais que óbvio pra onde eu quero ir com isso. Vilões são minorias, eles são os outcasts. E considerando que um número crescente de pessoas se sente excluído socialmente (devido a uma sexualidade não-hétero, raça não-branca, neurodiversidade, entre outros), é de se esperar que nós nos viremos para os vilões, que nos lembram mais de nós mesmos que os mocinhos. E quanto mais alienados nos sentimos, mais pensamos, agimos e nos identificamos como vilões. E esse é o ponto porque... eu não acho que isso seja um problema.

Algumas vezes, herois são tem claramente um pararelo ao cristianismo, como Superman ou Harry Potter, que claramente representam "o eleito", ou seja Jesus. Mas, na maioria das vezes, eles não são tão na cara. E, eu devo dizer que o Superman e o Harry Potter cativam crianças e adolescentes por um motivo: eles são levados a acreditar por adultos que não só eles podem ser qualquer coisa, mas que tem que ser os melhores em tudo que fizerem. Já os adultos não conseguem mais se identificar com um personagem que não tem sentimentos humanos, que age de forma artificial e nunca se sente cansado ou sem esperança.

Quanto mais eu cresço, mais eu noto que os anti-heróis são quem eu amo e me inspiro e os vilões são as partes mais complexas e reais de mim mesma. Talvez a minha geração esteja mais atenta para esses tipos de sentimento porque nos sentimos mais alienados que as gerações passadas e porque temos sensos de moral mais flexíveis (e devo dizer, funcionais).

Enfim, nós, em geral, somos intencionalmente o que as gerações anteriores temem. Somos minorias, somos vilões e vamos mudar como o sistema funciona.

Beijos, vadias.

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