YouTube, a Terra dos Dispersos

Eu sempre senti que o YouTube representasse uma parte importante da minha vida. Eu vi que foi o meu grande liberador. 
Porque antes desse período em que vivemos, fazer parte de movimentos de liberação era um tipo de privilégio. Pense nas sufragistas... mulheres brancas inglesas se reunindo em Londres. Eu não sou branca, eu não sou inglesa, não sou hétero. E mesmo se o movimento potencialmente me aceitasse como parte dele, provavelmente os objetivos que ele tivesse não seriam os meus objetivos. Elas queriam votar, trabalhar, ter direitos para divórcio; coisas que eu, como mulher anarquista e lésbica, não priorizaria. Claro, isso supondo que eu fosse transportada para um passado Britânico. 

Mas existe uma chance de organização esquerdista que funcione nos tempos em que estamos. O número de pessoas que usam a internet no Brasil é 71% e crescendo. Em 2018, metade do mundo tem acesso a internet e a tendência é que continue a aumentar. Não porque os governos querem que o mundo tenha acesso a internet, mas porque criar uma conta de email ajuda a coletas informações sobre a pessoa e criar perfis de consumo, etc. Ou seja, pelos motivos errados, o capitalismo vai se autoenvenenar. Enfim, os adolescentes tendem a internet e, nesses tempos de essencialismo, é considerado apenas normal que adolescentes usem a internet, como se a internet e o conceito de adolescência sempre tivessem existido. Mas não é como se a impressão estivesse errada; existe um motivo social pra que as novas gerações estejam conectadas a internet sempre que possível. A alienação causada pelo capitalismo às vezes é forte mais pra que a gente aguente se manter no mundo real por mais de algumas horas. 

E a alienação vem do nosso valor ser o da beleza, das notas que definem seu salário futuro, dos estresses de descobrir que por mais que a adolescência seja idealmente um estado de exploração de uma identidade, você precisa decidir a "casca" você vai colocar como um adulto.

Depois que o adolescente usa a internet por tempo o suficiente, ele cria um mundo confortável em que ele pode ficar e é cada vez mais difícil de se importar para o mundo de fora, a não ser que você tenha amigos, romance e famílias saudáveis, o que não é a realidade da maioria dos adolescentes. E mesmo que você tenha uma vida saudável sem a internet, é bem claro o quanto você perde a carga cultural que a internet dá as pessoas. Memes, conversas filosóficas, livros, músicas, séries, filmes, eventos, celebridades... você não conhece os seus amigos se você não consumir essas coisas. Tem chance até de você não entender do que as pessoas estão falando, como acontece frequentemente comigo.

O curioso é que isso me lembra bastante como OSDD funciona pra mim. A Hanna, a anfitriã do sistema, não consigue ficar mais de quatro horas sem deixar que outra pessoa cuide do corpo por alguns momentos. Sendo esses "momentos", às vezes, horas ou dias, dependendo do que estiver sendo evitado. Por exemplo, tivemos uma briga familiar que esta fazendo a Hanna ir por um ciclo emocional que envolve pensamentos suicídas. Sendo assim, ela deixou que eu, Merida, e Josh cuidássemos do corpo pela maior parte do dia. OSDD vem de trauma, portanto, eu sei que evitar sentimentos desse tipo são a base do transtorno. Eu sinto que o vício que a internet vem de um sentimento de desconexão com o mundo, e enquanto o mundo continuar dessa forma, nós continuaremos na internet.

Agora, partindo do princípio que os adolescnetes vão fazer parte desse mundo virtual, eu acredito que o YouTube é o principal site criador de opiniões. O Facebook não me convencia a mudar de opinião nem mesmo quando eu tinha 13 anos, mas o YouTube me fez ir de boa menina cistã para mulher anarquista, ateísta e abertamente lésbica. Mas quantas vezes eu já falei disso nesse blog. O que eu quero dizer com esse artigo é que os jovens estão aqui, eles estão aqui, com seus questionamentos religiosos, de gênero, de sexualidade, políticos; se sentindo livres para explorar ideias em um mundo que não gosta de liberdade. Eu sinto que a partir do Neoliberalismo vai vir uma das duas opções: uma distopia capitalista virtual ou uma revolução anarquista muito confusa, mas com muita intenção. 



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