Quarta Semana "Sem YouTube"
Com essas aspas, eu sinto que você já sabe o que eu quero dizer, caro leitor do meu blog.
Ocorre que eu ouvi um episódio de Low Society no ínicio da semana... e Ashleigh falava sobre o Black Lives Matter e o que estava acontecendo nos estados unidos.
Acontece que quando eu comecei a parar de consumir feeds de todos os lugares, eu fiquei alienada das coisas que estavam acontecendo no mundo... justamente no mês em que as coisas estão pegando fogo, muitas vezes literalmente.
Mais um homem negro morreu nas mãos da polícia a mais ou menos um mês - o vídeo está rolando na internet e todo mundo viu. Eu não conseguiria ver, mas eu entendo o porquê das pessoas precisarem de um vídeo para acreditar no que está acontecendo, sempre fomos ensinados de que a polícia está aqui para nos proteger, mas na verdade eles são fascistas (surprise, surprise).
Basicamente, eu amo a Ashleigh, e eu precisava de notícias nas quais eu consigo confiar, sendo assim, eu chequei o canal dela. "Antifa Kidz" era o último vídeo e, conectando os pontos, eu sabia o que ela queria dizer com o título. O vídeo era longo, a thumbnail era ótima... e falava das coisas que me importam. Cliquei sem titubear.
No dia seguinte, eu assisti os três novos vídeos do Big Joel, depois de dois dias, o novo vídeo do Peter Coffin sobre liberalismo sendo uma bosta, então, eu comecei a pesquisar todos os leftubers que eu conseguia lembrar: Sarah Z, ContraPoints, PhilosophyTube. Mas me recusei a entrar nas recomendações... por um motivo tirado do livro Bored and Brilliant: o que causa a ansiedade e falta de atenção, de acordo com estudos, é a interrupção causada por feeds e recomendações. Assuntos diferentes, com distintos níveis de importância aparecem na sua frente sem sua permissão, atenção ou intenção. O que te deixa doido, viciado, ansioso, etc.
O meu cansaço e desprezo pelo YouTube sempre vinha depois de três horas nas recomendações e nenhum vídeo bom para assistir. Basicamente, três horas desperdiçadas procurando algo que me cativaria, jogando os dados do acaso (ou do algoritmo), mas não me satisfazendo nem um pouco.
Nessa semana, eu vi, intencionalmente:
Liberalism SUCKS (Peter Coffin)
Antifa Kidz (Ashleigh Coffin)
PragerU Series (Big Joel)
Does J.K. Rowling's Transphobia Ruin Harry Potter? (Sarah Z)
Antisemitism: An Analysis (PhilosophyTube)
Justice for George Floyd (Riley J. Dennis)
Basicamente, todos os vídeos foram sobre assuntos importantíssimos que aconteceram nas semanas sem YouTube e eu nem sabia que estavam rolando.
Outro fator que me levou a ver esses vídeos no YouTube foi o fato de que eu já tinha gastado dinheiro demais com livros esse mês. Minha mãe chegou até a brigar comigo. Mais de 200 reais gastos em livros, que apesar de muito bons, eram também caros. Li eles rápido de mais, não porque eu queria que acabasse logo, mas porque eu não tinha mais nada intelectualmente estimulante para fazer.
A quatro dias atrás, eu estava absolutamente louca porque eu já tinha terminado minha hora de dever de casa, já tinha escrito no meu diário, feito minha batida de banana, todo mundo estava dormindo e eu queria uma coisa estimulante para fazer. Não era medo do tédio, era só uma vontade violenta de encontrar algo que mantivesse meu cérebro em estado sólido. Eu me lembrei de um episódio de Low Society com esse antropólogo carismático que escreveu um livro chamado Bullshit Jobs. E, como quem não quer nada, chequei se tinha o audiolivro dele no Audible. E tinha.
Na descrição estava escrito que o livro tinha 17 horas de delicioso conteúdo anarquista. A capa? Linda. O preço? Quinze reais. Não consegui resistir. Comprei... e li o livro em dois dias. O curioso é que, quando você valoriza o que você tem, o tempo passa devagar. É como se cada segundo fossem cinco. É como eu estivesse morrendo de sede depois de um exercício intenso e aquele livro fosse 500 ml de água mineral estupidamente gelada. Eu passei dois dias lendo ele, mas eu me lembro de cada partezinha. Se me dessem um teste sobre a porra do livro, eu faria ele em quinze minutos e tiraria 10.
Você entende a situação em que eu me encontrava?
Foi exatamente isso que aconteceu com os vídeos citados na lista acima, caro leitor. Como você acha que eu me lembro dos títulos? A informação entrou no meu cérebro como se ele fosse uma fucking esponja. Mas esse é o negócio:
Livros são caros, redes sociais são de graça.
Em tempos que o dinheiro está diminuindo nas classes que não são as dominantes, o nosso entretenimento e as notícias precisam ser de graça. Meus pais não são pobres, mas eu sou. E eu usei duzentos reais em livros, quando eu poderia ter aceitado o meu vício no YouTube e só gastar a internet, como qualquer Gen Z.
Sendo assim, depois de notar que eu estava consumindo a mídia que me faz mal, cheguei a conclusão de que eu faria as coisas de forma ilegal, como grande parte das pessoas que querem uma vida melhor. Cá estou... baixando livros em PDF. Nunca achei que chegaria nesse ponto, mas... eu não tive escolha.
Sendo bem sincera, eu sei que eu só sou uma fresca que acredita em "livro bom, celular mau", então, meus crimes mal chegam a ser crimes por serem de origem extremamente classe-média. Comparado com o que pessoas que realmente não tem condições materiais precisam fazer (como vender drogas para pagar as contas), eu não tenho grandes problemas. Mas eu ainda tenho o direito de reclamar num blog que ninguém lê. Não é como se eu fosse calar a boca para meus problemas porque pessoas tem uma vida pior.
Enfim, decidi que eu iria ler um outro livro do David Graeber, Debt: The First 5.000 years. Ontem, eu li 40 páginas do meu maravilhoso PDF. Sou extremamente grata pelos anarquistinhas da internet disponibilizarem tal material. Obrigada, usuários do tumblr.
Mas voltando a minha quarta semana "sem YouTube", eu estou muito satisfeita com o desenvolvimento da minha imaginação nessas últimas semanas. Tenho tido mais proximidade do meu sistema por causa do tempo que eu posso ficar sozinha sem me sentir mal. Ontem, eu conversei com a Harley e a Ivy sobre o último episódio da segunda temporada da animação Harley Quinn. O Kiteman estava puto com as suas e a Ivy não queria ficar perto da Harley. Então, eu ouvi a Harley falar exatamente sobre o que ela sente e foi tão estranhamente profundo. Além de que ela me levou para uma parte da ilha (na Terra X) que eu nunca tinha ido antes. Então, eu pude explorar uma parte da 'minha cabeça' e conversar com ela sobre o que estava acontecendo. Espero que eles se resolvam logo. Só quero que os três fiquem felizes.
Esse tipo de coisa tem acontecido com frequência, sabe? Temos uma comunicação muito melhor agora. O Hunter foi quem cuidou do corpo nos últimos dias. Ele seguiu quase todas as regras, foi gentil com a minha família da Terra Z - realidade- e foi comprar coisas para tratar da pele como um presente para mim. Além de que, toda a vez que eu me chamo de idiota enquanto estou na luz (frontando), eu me pergunto se, na verdade, eu estou ofendendo alguém no meu sistema em vez de mim mesma, o que tem melhorado bastante a minha autoestima, e me ajudado a parar de me ofender.
Outras coisas: estou começando a usar minha mão esquerda para cozinhar e estou desenhando freneticamente nos últimos dois dias.
Também comprei muitas frutas para comer ao longo da semana... tenho feito cocôs dignos de portfólio.

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