Uma Epifania: Eu Não Quero Ter Um Celular.
Em 2010, eu tive meu primeiro smartphone. Ele era foda. Tinha jogos de merda, mas que para época eram absolutamente fantásticos. Todos os outros pirralhos babavam ao ver o aplicativo estúpido de cerveja descendo, como se eu a estivesse bebendo. Me apeguei tanto ao celular que quando eu tive que trocar, meu coração partiu. Foi triste. Desde então, eu sempre tive celulares novos, cada vez mais atualizados, cada vez mais viciantes, como a maioria das pessoas de classe média.
Eu fui uma das primeiras pessoas que eu conheço a ter uma conta no Netflix e no WhatsApp, fiz contas em todas os apps possíveis, mas depois daquele primeiro momento, essas novas tecnologias começaram a perder o brilho pra mim. Acontece que eu prefiro conversar com as pessoas cara a cara a tentar entender o novo código de emojis devido a um meme específico. E eu sempre dizia ara qualquer pessoa que quisesse ouvir: "Eu só não gosto das guerras do Twitter, assim como a superficialidade do Instagram. Por falar em Inta, as Kardashians são estranhas e eu não confio nelas. E o iFood, o Uber e o YouTube? Eles estão praticamente escravizando os próprios trabalhadores! Sei lá, eu não confio nesses algoritmos aí."
Tudo na internet começou a me aterrorizar. Eu sinto que estamos perto de mais de uma distopia tecnológica, então, eu não quero mais participar disso, será que é possível? Já tivemos uma pandemia global, só faltam os governos fascistas, a vigilância em excesso e o controle moral... Pera aí, acho que já estamos na distopia Orwelliana, meus caros. A única diferença é que ela é bem mais líquida e glamourosa do que o livro esperava. Parece uma história que não acaba, build up build up e nunca o paying off. E eu cansei dessa merda.
Eu sei que eu falo essa frase bem frequentemente. "Eu estou cansada". E por mais que eu esteja, meu cansaço não é causado por algo biológico ou psicológico. Eu estou nesse estado emocional por causa do mundo ao meu redor. As telas, os outdoors, as crises, a instabilidade. Eu mal consigo sonhar com o futuro porque a volatilidade é tão alta que eu não sei se estaremos morrendo de fome ou se eu estarei vivendo uma vida próspera, como prometido pelo capitalismo.
Eu já escrevi um artigo sobre as saídas que eu tive de redes sociais. A partir de 2014, eu comecei com o Facebook, passando pelo Twitter, o Instagram, WhatsApp... e finalmente, o YouTube. Saí de todas as redes sociais. Depois dos primeiro momentos, veio o tédio, que, como eu aprendi, tem a função de trazer sentido a sua vida quando estamos passando por momentos pouco estimulantes. O tédio veio com todo o seu poder no meu cérebro, já que eu estava constantemente interrompendo meu curso de pensamento com excesso de estímulo. Basicamente, eu tive uma lona revisão dos últimos anos da minha adolescência até agora. Comecei a pensar nesse processo, no meu vício, no mundo. Depois, eu comecei a notar a quantidade de contas no Google que eu já tive, e nos aplicativos que me viciaram e logo eu desinstalei e também me lembrei dos momentos que eu comecei a escrever no meu diário porque as coisas começaram a ficar estressantes. Claro que eu acreditei que eu tinha ansiedade e depressão, adicionados à condições geracionais, que o mundo é estressante porque estamos na era da informação. Eu sempre achei que fosse impossível de se desligar, mas agora que eu estou passando por esse momento de reflexão (devido ao tédio que sinto pela primeira vez em muito tempo), e eu consigo ver que é possível fugir e que eu poderia ter fugido antes.
Em uma semana e meia, eu me desconectei ao aplicativo que eu era viciada e meu emocional mudou em excesso. Emoções que eu nunca achei que sentiria: paz, autorreflexão, satisfação pessoal. É como se uma montanha tivesse sido retirada dos meus ombros. Tudo é mais fácil... tomar banho é mais fácil, dormir é mais fácil, conversar é mais fácil, se lembrar de cenas passadas é mais fácil, assim como imaginar é muito mais fácil. Pela primeira vez, eu consegui planejar como fazer meus deveres de casa, estou entregando os trabalhos na hora certa. Meus sonhos são vívidos! Meus sonhos são lúcidos. Eu nunca estive tão bem.
O que aconteceu? A única ação que eu tomei foi parar de assistir o YouTube! Aí, eu me lembrei daquela vez que eu brinquei de blocos de construção numa tentativa de substituir o Minecraft. Foi estranho, mas eu pelo menos tentei.
Eu também me lembrei daquele momento que eu estava absolutamente alucinada pela ideia de ter um IPod Shuffle a uns dois anos atrás, para que eu não precisasse de aplicativos de música... Um outro dia que eu decidi que iria comprar um relógio de pulso, porque toda a vez que eu checo a tela do celular eu fico distraída demais para computar as horas. Ou ontem mesmo, quando eu queria comprar um Kindle de aniversário para não ler no celular.
Foi aí que caiu a ficha.
Eu ando boicotando meu uso de celular a tanto tempo que eu nem notei que as atividades que eu estava testando iriam substituir cada um dos apps que eu tinha. Eu nem mesmo notei que eu não queria um celular novo, mesmo que o meu esteja caindo aos pedaços.
Eu não quero ter um celular. E eu não vou ter um se eu não quiser.

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