Método do Entendimento Tardio

Uma coisa que eu faço desde criança é um método de entendimento tardio. Toda a vez que eu não entendia algo que parecia importante, ou algo que eu não entendia por causa da minha idade, eu guardava no funo da minha mente. A primeira vez que eu fiz isso foi com uma piada, eu vi que muita gente da família achou uma piada engraçada e eu não tinha entendido o motivo. Eu perguntei o que aquilo queria dizer e eles só riram mais, dizendo que eu entenderia quando eu crescesse. Então eu disse pra mim mesma que quando eu crescesse, eu iria me lembrar daquilo e saber do que as pessoas estavam rindo. Surpresa! Era só uma piada suja. Alguns meses depois, eu fiz a mesma coisa com a informação que em Brasília, não tem praia. Fiquei muito decepcionada que os adultos não providenciaram uma praia e reclamei com a minha mãe. Ela disse que era algo geográfico que os adultos não conseguiriam só fazer do nada. Fiquei confusa e ela disse que eu entenderia quando eu crescesse, e depois de anos, nas minhas primeiras aulas de geografia, eu entendi.

O ponto é, eu criei um série de momentos na minha cabeça para a primeira vez que eu escutei certas ideias. Aos seis anos (essa memória é mais clara) eu estava brincando com a minha irmã e ela cantava a música "Hanna banana, vegetariana, 24 horas sem comer banana". Sim, é uma música genial, sempre adorei o fato de que banana rima com banana. Aparentemente a música começava com o nome Ana, mas toda a vez que eu brincava, as pessoas a minha volta faziam questão de dizer meu nome, o que eu adorava. Mas eu já estava na fase de entender grande parte das palavras, então decidi perguntar o que significava "vegetariana", já que eu nunca escutei essa palavra fora da musiquinha. Minha irmã disse que eram pessoas que não comiam carne e eu perguntei porque elas fariam uma coisa dessas e ela disse que "eles tem pena de matar os animais". Fiquei confusa com essa informação já que carne era necessária pra ficar forte, como a mamãe dizia. E eu não entendi muito bem de que forma animais e carne eram conectados. Continuamos a brincar como se nada tivesse acontecido, mas aquilo ficou comigo.

Outras coisas que corroboraram com a ideia de vegetarianismo foi a Chelsea em Visões da Raven, a melhor amiga branca da Raven, a principal. Ela era muito burra e por algum motivo eu sempre gostei mais dos personagens que não entendiam nada e falavam coisas engraçadas, eles sempre foram meus os meus favoritos. A Chelsea era muito vegetariana, ela até não comia hambúrgueres que não fossem vegetarianos! Tem um episódio em que a Raven tem uma visão que a Chelsea comeu o hambúrguer errado, então a Raven impediu que isso acontecesse a a Chelsea agradece ela. Também tem um outro episódio em que a Chelsea faz um protesto contra o uso de peles de animais para roupas e ela acaba convencendo a Raven de que essa é a coisa certa a fazer. Isso com certeza me ajudou a formar uma ideia do que era ser uma pessoa vegetariana.

Já a primeira vez que eu ouvi sobre ateísmo foi quando eu estava vendo o meu pai falar com um amigo na Igreja. Ele estava falando com o Iraldo, inclusive. E meu pai falou de um colega do trabalho que acreditava que depois da morte, o corpo vai pra embaixo da Terra e nada mais acontece. Fiquei absolutamente chocada. Como é que alguém consegue viver achando que vai morrer pra sempre? Saí correndo para falar essa nova informação para minha irmã, eu tinha uns 7 ou 8, com todo o impacto de saber que morrer para sempre era uma opção. Contei pra minha irmã e ela parecia decepcionada, como se fosse uma informação não muito interessante. E ela disse algo do tipo "sim, é claro que tem pessoas que acreditam nisso". Eu fiquei pensando, como é que as pessoas não me falaram que morrer e ser enterrado é provavelmente o nosso fim? É a pior opção, mas é a mais óbvia.

Uma outra memória relacionada a Ateísmo foi no momento em que eu escutei a frase "a religião é o ópio do povo". A primeira vez que eu escutei essa frase foi da minha irmã, enquanto criticava Karl Marx e o comunismo. Ela disse que nunca concordaria com alguém que falou uma coisa dessas. Eu me lembro que eu perguntei a ela o que era ópio e o que a frase queria dizer. Ela disse que ópio era uma droga usada na China para controlar a população e mantê-los a favor da ocupação inglesa. Já a frase, quer dizer que a religião é usada como uma ferramenta contra as pessoas, comparando o que aconteceu na China. Minha irmã sempre foi muito inteligente, ela tinha uns 16 anos na época e eu tinha 13. Aquilo ficou na minha cabeça. A religião é como o ópio. Anos depois, meu pai estava falando de ateísmo como um tópico na mesa, e ele disse que os ateus acreditam que a religião era uma ferramenta para a criação de uma massa de manobra, em prol de agendas políticas. E mais uma vez, aquele conhecimento se acumulou.

Me lembro da primeira vez que eu escutei a palavra "lésbica", aos 10 anos. Eu estava lendo um livro chamado Persépolis na biblioteca da escola. Naquele livro, eu aprendi muito conceitos interessantes, como o que acontece quando Igreja e Estado se misturam. O que é ser jovem num governo autoritário e como é aprender coisas necessárias para a adulteza, já que o livro era sobre o crescimento dessa menina muçulmana e coisas do tipo. Mas a cena em que eu vi a palavra "lésbica" foi curiosa. Ela estava narrando como existiam escadas diferentes para homens e mulheres, provavelmente para evitar que as pessoas vejam as bundas uns dos outros. E ela pensou se tinham lésbicas na fila. Aquilo me impactou. Fiquei pensando no que ela queria dizer. Se lésbicas eram as pessoas que estragavam a ideia de separação entre homens e mulheres, quer dizer que elas olhavam para as bundas das outras mulheres da mesma forma que homens olhariam. Ou seja, eu tinha entendido o que eram lésbicas, mas eu precisava confirmar o que significava e perguntei pra minha irmã. A reação dela foi bastante raivosa. Ela disse que eu sabia o que queria dizer e que ela não iria responder. Fiquei confusa com a resposta, talvez ela já soubesse que eu gosto de mulheres mais cedo do que eu sabia. Além do mais, eu só precisava de uma confirmação, não é como se só a minha irmã poderia confirmar. Decidi procurar um dicionário, porque eu queria que ninguém notasse. Abri e lá dizia "mulher que sente atração sexual por mulheres". Era isso mesmo, mas por algum motivo, a identificação que eu tive com a ideia de lesbianismo no livro era bastante diferente da do dicionário. Primeiramente, eu não era mulher, eu era uma menina. Segundo, eu não sabia se eu sentia atração sexual por outras mulheres, talvez romântica, mas não sexual, não ainda de qualquer forma. Terceiro, eu não sentia atração por mulheres, minha atração era por meninas da minha idade. Então todo o significado que eu senti foi embora naquela definição. Parecia que não era pra mim.

A primeira vez que escutei sobre pessoas não-monogâmicas foi com uma pessoa no cinema conversando com um amigo antes do filmes começar. Ele falava sobre como ele descobriu essa coisa legal chamada poliamor e como as pessoas não são monogâmicas. O amigo dele estava cético, mas parecia prestar atenção. Ele começou a falar de coisas como grupos, mas também redes, mas também linhas, e sobre casais principais mas sendo abertos. Eu tinha uns 13. Minha irmã estava do meu lado e repreendeu a ideia, assim como eu, concordando plenamente que tudo aquilo era absurdo, por mais que não soubéssemos de absolutamente nada sobre o assunto.

Enfim, eu começo a achar que ter feito esse pequeno método aos 4 anos, ou numa idade parecida, foi uma baita ideia.



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