Minha Utopia (escrito em 23 de junho de 2020)

 Vamos imaginar o futuro.

Acontece que a atividade de imaginar o futuro por algum motivo está conectada com Utopias e como precisamos de utopias para uma sociedade melhor... eu preciso tentar imaginar um futuro.


Vamos considerar que conseguimos diminuir o efeito do aquecimento global porque o Bernie Sanders ou a Alexandria Ocasio Cortez é quem ganhou a eleição de 2024 nos Estados Unidos, depois de várias revoltas como Black Lives Matter e, não sei, uma revolta a favor de um Universal Basic Income, por exemplo, o que traz luz a certas visões mais de esquerda. Sendo assim, a consciência de classe cresce entre a maioria das pessoas. Com a variedade de esquerdas que inevitavelmente vão crescer disso, muitas delas se desconectarão de causas identitárias e focarão mais em luta de classes, atraindo conservadores e fascistas de classes não-dominantes que estão questionando suas crenças e entram na onda progressista.


Com Alexandria na presidência, sendo não só a primeira mulher, mas também latina, além de ser uma progressista de verdade, mudanças acontecem. Como, por exemplo, diminuir o efeito do aquecimento global e salvando a raça humana de uma destruição iminente... mas como o Governo Cortez faria tal coisa? Diminuindo a carga horária semanal dos americanos e investindo em tecnologias especificamente para fazer trabalhos de fábrica/casa/escritório inúteis e, sendo assim, diminuindo de energia elétrica até a emissão de gás carbono. Porém, é claro que o governo Cortez faria mais do que isso.


Programas de Basic Universal Income vão tentar passar no Congresso, mas não com facilidade. Tem chance dele demorar mais do que os quatro anos que ela vai passar no primeiro mandato. E obviamente, reacionários reagirão. Mas ainda assim, ela segue com o apoio da classe-média liberal identitária, e também da classe trabalhadora.


Enquanto isso, o Brasil começa a repensar se votar num fascista foi uma boa ideia. Chegamos a conclusão de que não, e assim como os estados unidos, votamos em um governo realmente de esquerda, como o psol ou o partido comunista, coisa do tipo.


O mundo, admira tais mudanças. Cientistas e artistas voltam a ativa, a classe média começa a parar de acreditar no protestantismo puritano e começamos a passar por horas e horas em lazer... e com isso, vem  o engajamento político, a criatividade, a educação autodidata, arte, cultura, felicidade, melhor humor. O mundo muda substancialmente para o melhor. E a esquerda, antes renascendo das cinzas, agora cresce com força e várias esquerdas submergem. O sistema eleitoral americano é mudado, assim como o brasileiro, para um sistema de "tiers" em que as pessoas votam em uma lista de pessoas que elas preferem do primeiro ao último candidato.


Várias coisas agora começam a melhorar.


O mundo começa a se intelectualizar, não no sentido de ir a faculdade, mas de ler, pesquisar, exigir provas, apoiar ideias e não pessoas. A internet foi democratizada, assim como o cinema, os audiolivros, os teatros, a televisão. Bibliotecas? Em cada esquina tem uma.


Já passaram onze anos desde o coronavírus, sete anos desde que Alexandria é presidente, e quatro desde que votamos para a nossa presidente. Horas de trabalho semanais máximas agora são 30, leis dizendo que chefes não podem contatar os empregados em horas fora do expediente são colocadas em vigor, não tem mais pessoas trabalhando em redes de fast food além dos três funcionários na cozinha. Caixas são quase incomuns, frentistas não existem, entregadores de comida agora podem trabalhar menos, não só por causa do Salário Universal que o Brasil vai começar a prover, mas também porque os entregadores vão se sindicalizar e o IFood vai se sentir pressionado a contratar eles, também provendo benefícios trabalhistas, consequentemente, que inclusive, vão melhorar pra caralho.


Com a pressão do trabalho excessivo fora do caminho, as crianças vão estudar menos na escola e estudar mais em casa. A Universidade só tem pessoas que querem uma educação superior porque pouquíssimos empregos exigem educação superior. Mulheres vão sair de relacionamentos abusivos mais facilmente (por causa do Basic Income), jovens vão se libertar dos pais abusivos. Por falar em jovens, com certeza os Gen Zers iriam criar comunas de todos os tipos. Algumas baseados em política, outros em religião, esportes ou artes, outros focados em criação de filhos, adoração de gatos ou fandoms. Eu, por exemplo, com certeza moraria numa comuna artística e child-friendly. E, apesar de eu absolutamente não esperar por romance agora, eu com certeza me imaginaria com duas filhas. Depois de alguns anos criando minhas crianças, eu encontrarei na comuna Hail Muse o meu amor, minha vida, minha casca de ferida... Joanne. Minhas filhas vão amar ela é claro, mas isso está ficando pessoal de mais. Vamos voltar para a política.


Como você pode ver, será mais ou menos nesse ponto que eu não ligaria mais para mudar coisas da minha vida, a partir daí, eu lutaria por coisas que para mim estão agora em segundo plano, como, por exemplo, acabar com o presidencialismo, a polícia, o sistema prisional e, finalmente, o capitalismo. Porém, apesar de eu saber que essas coisas as quais eu quero destruir tenham sido bem ruins no passado e no presente... eu não faço a mínima ideia de como substituí-las com algo melhor. 


Essa é a minha Utopia.





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