Celular Acaba Com O Tédio (E Isso Não É Bom)

Eu não sei se você notou, mas tem sido estressante. E eu acho que esse estresse vem justamente de excessos vindo de notícias, discussões, relacionamentos, brigas, etc. Existe um excesso que nunca existiu antes, eu sinto. E o que mais me aflige sobre isso é que quase tudo é útil, importante e urgente.


Antes, eu vivia sob a ilusão de que se você cortasse todas as coisas inúteis, nunca ficaria estressado, mas apesar de eu ter encontrado paz no minimalismo de objetos, eu estava absolutamente errada ao aplicar isso a internet, porque ela é um poço sem fundo, e esse aspecto é o que destrói todos os limites pessoais que eu possa colocar. Sempre vão existir feeds intermináveis, mais assuntos, mais vídeos, mais artigos, mais posts, mais comentários... infinitamente.


Depois que eu notei que mesmo as coisas importantes eram um excesso para mim, eu tentei consumir apenas os assuntos que falavam diretamente comigo, mais uma vez tentei purificar meus feeds. E, mais uma vez, a internet me proveu em excesso. Até o ponto em que eu cortei tudo.


Em 2014, eu cortei Facebook.

Em 2015, eu cortei Instagram.

Em 2017, eu cortei Twitter.

Em 2019, eu cortei Whatsapp.

Em 2020, eu cortei YouTube.



vou viver nas montanhas, beijos


A tristeza de tudo isso é que eu já sabia que essas redes eram voláteis. O Facebook, por exemplo, já morreu, assim como os assuntos pelos quais eu me importava na época, e assim como todos os "amigos" (conhecidos) que eu tinha nessa rede - acontece que a maioria deles não são meus amigos. Tudo se foi num estalar de dedos e não houve uma única pessoa que me perguntou "porque seu face sumiu?" desde que eu saí, seis anos atrás.


Faz uma semana que eu deixei o YouTube. Se você leu os artigos de antes (obviamente você não leu), você notou que foi um sofrimento largar aquela plataforma. Mas eu consegui e, agora que eu não sinto mais a vontade de voltar, eu posso afirmar que a vida é bem mais calma... e terrivelmente entediante.


Acontece que quando você não passa quatro horas por dia só absorvendo informações aleatórias, você tem mais tempo pra pensar em nada. Claro que isso é apenas questão de tempo porque eu vou me adaptar, os seres estão fadados a adaptação ou a morte; mas o tédio sempre foi algo presente na minha vida. Não existe um dia que passe sem o tédio bater, especialmente depois de uma atividade muito estimulante... atividades desde assistir todos os episódios disponíveis de Teletubbies em 1998, até assistir vídeos de quarenta minutos sobre o Brexit, em 2019.


Sendo assim, eu não acho que tédio seja algo criado pelas mídias audiovisuais, nem pelo capitalismo, sem que ele seja só humano. Na verdade, acho que as mídias servem justamente para evitar o tédio com todas as forças e não criá-lo. E, sendo o tédio um sentimento natural e servindo a um propósito; o que será que estamos perdendo?


"Será que eu sempre fui viciada em mídias audiovisuais? Será que meus pais sempre foram viciados? E meus avós?." é o tipo de coisa que ando pensando em meus momentos de ócio. Depois de alguns momentos, eu comecei a tocar algumas notas no piano, treinei minha caligrafia com a mão esquerda, admirei os barulhos humanos do prédio na frente do meu, li vários artigos científicos sobre a função do tédio, sobre vícios, sobre entretenimento e estou lendo lentamente o novo livro da saga crepúsculo "Vida e Morte" que é basicamente Crepúsculo, mas com os gêneros e sexos "opostos". É esquisito, mas o tédio renovou minha vida de uma forma que nada mais o fez.


Quando eu virei vegetariana, eu senti falta do peixe, não da carne. Quando eu parei de assistir televisão, eu senti falta dos filmes da Disney, não das séries. Quando eu virei vegana, eu senti falta do leite com chocolate, não dos brigadeiros. Quando eu cortei o YouTube, eu não senti falta da informação, mas das vozes. Muito antes do tédio bater, o silêncio bate. E o silêncio é inquietante.


Depois de pesquisar um pouco sobre o assunto, me vi questionando se o excesso de informação causaria tédio, já que eu sempre senti extremo tédio depois de passar horas na frente da TV, do celular ou de uma aula. Até que eu me deparei com o seguinte:



"Sharday Mosurinjohn, professora na escola de religião no Queen's contribuiu com um artigo sobre mandar mensagens e 'tédio de excesso', o conceito de que, quando bombardeados com excesso, nós perdemos o senso de sentido e nos tornamos entediados. Ela investiga a fascinação na monotonia de mandar mensagens para si mesmo: 'É algo extremamente entediante, mas também se torna evidentemente significativo quando continuamos a fazê-lo'."


O artigo dá a entender de que nós nos recolhemos ao tédio para encontrar sentido, depois de um bombardeio de informações. Será que, depois de trabalhar e passar várias horas na frente de uma telinha, nós temos tempo para ficar em paz com nós mesmos? Porque a minha impressão é de que a gente não tem tempo pra porra nenhuma.


Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

It's been a while

Challenge #5

Brownie Vegano Para Preguiçosos