Como eu me sinto depois de descobrir que eu tenho OSDD

Já faz quase dois meses que Giulia, a anfitriã desse sistema, descobriu que nós somos, de fato, parte de uma só pessoa que nunca existiu. Eu sou a Kara, frontando com a Thalia co-consciente. O Corpo vai se sentir uma merda amanhã, mas eu prometo, por tudo o que eu mais amo, que ele vai dormir a tarde inteira.

E esse é justamente o processo pelo qual estamos passando nesse momento de autodescoberta. A Giulia tem falado muitas vezes durante o dia que agora ela entende os motivos das coisas nunca darem certo. Ela vivia com uma visão de mundo que simplesmente não se aplica a uma pessoa (ou várias) com OSDD. Como, por exemplo: "seja você mesmo" e "organize seu tempo". Primeiro que se todos nós fôssemos nós mesmos, toda a vez que Ilda frontasse, ela iria tentar matar o corpo. E nem precisaria ser tão drástico. Só o fato de um de nós dizermos uma coisa num dia e no outro, outra pessoa dizer algo completamente diferente, já ativaria os sentidos aranha das pessoas ao nosso redor, seríamos interrogados, acusados, atacados e mais. Ou seja "ser você mesmo" só se aplica quando nós estamos sozinhos ou no espaço mental, ou na co-consciência. No mundo "real" não pode ser você mesmo, tem que fingir ser a Giulia/Hanna.

Já o conceito de organizar o tempo é o que está causando parte da depressão da Giulia.

Grande parte da vida dela dependia de organizações constantes. Mas essas organizações (quase) nunca funcionaram. O grande problema era que ela queria fazer as coisas que ela organizava. E aí, quando chegava a hora, era outra personalidade, com vontades completamente independentes das dela.

Agora, ela sabe que grande parte do que acontece ela simplesmente não tem controle. Ela está dormindo e eu estou escrevendo, por exemplo. Ela não sabia que isso ia acontecer agora, ela estava planejando dormir cedo. E é essa falta de controle que criou a Lia, a alguns anos atrás. E eu não sei se outras personalidades vão sair desse episódio depressivo.

Essa é a parte interessante. Ela está criando outras coisas para organizar, que talvez funcionem, talvez não. Por exemplo: uma agenda diária, que em vez de colocar o que se deve fazer, se coloca o que já se fez. Ou então, um calendário online ou uma personalidade "arrumadeira". Eu não sei se isso vai funcionar e as chances são de que não. E aí, todos os sonhos dela começaram a desmoronar. Os filhos, a namorada, o emprego, os planos, a casa, as viagens. Tudo caiu por terra porque ela agora precisa considerar que nós existimos como um coletivo e que todos nós aqui temos a função de fazê-la não lembrar de estresses, traumas, pessoas malvadas. Ou seja, o corpo dela é o corpo de um milhão de pessoas, ela é traumatizada e, de certa forma, fora do normal. É claro que isso é difícil. Estamos tentando convencer ela a tirar uma folguinha a um tempo, já que conseguimos imitar ela muito bem. Mas ela não larga o osso. Parece que ela está com medo de perder a autoridade, de certa forma. O que é totalmente entendível.

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