Rachel Dolezal (Lia)
Ontem, eu vi um documentário da Netflix sobre a Rachel Dolezal, a mulher branca que se identifica como negra. Foi bem interessante, me fez pensar. Raças foram inventadas por Europeus e eles estavam completamente errados sobre como etnias funcionam. Por que a gente liga tanto assim pra categorizações de humanos que não fazem nenhum sentido? Por exemplo, muitas pessoas falaram pra Rachel que ela não sabe como é ser uma mulher negra porque ela não conhece a opressão que uma mulher negra sofre. Então o feminino e a negritude tem que ser diretamente associados com sofrimento?
Apesar desse meu questionamento estar favorecendo pessoas brancas no debate ou pelo menos, me apropriar dos argumentos do Morgan Freeman, eu não quero dar a entender de que concordo com a lógica do "se a gente colocar embaixo do tapete, talvez suma". Eu sempre sou favor de pessoas negras quando racismo está em discussão como em apropriação cultural, privilégio branco, colorismo, texturismo e outros tópicos anti-racistas. Mas é bom pensar: será que as pessoas (de todas as raças) estão com raiva da Rachel porque ela quer ser algo que todos rejeitam? Claro que a rejeição da negritude tem enbasamento histórico, eu não esperava algo diferente das pessoas. Afinal, fomos todos criados numa sociedade racista. Mas será que a rejeição à Rachel não significa algo mais profundo? É como se representasse atacar a negritude, mas sem precisar se preocupar se você está sendo racista, porque ela é branca. Então você pode rejeitar a negritude nela o quanto você quiser. Atacar ela, atacar os filhos dela, dizer que ela é louca por querer ter cabelo crespo, por gostar de negritude e lutar por ela (por mais que ela não seja negra). Além do caso dela ser completamente regado a racismo, não contra ela, mas contra o que ela faz; também teve muita misoginia envolvida. Pessoas falando que ela era louca, tinha fetishes de raça e que ela era mentirosa, sendo que não parece que ela mentiu nenhuma vez. Ela chamava de pai o homem que apoiou ela em vez do abusor e progenitor dela, foi literalmente isso.
Quanto à identificação dela, ela é branca. Eu não acho que ela seja trans-racial ou seja lá o que ela quer que as pessoas a chamem. Mas eu também não sei o porquê de eu achar isso.
Eu sou misturada. Os traços mais presentes em mim são nativos peruanos, brancos e negros, respectivamente. Eu nasci no Brasil e sempre fui classe-média alta. As pessoas me leem como branca por mais que obviamente eu não seja branca. É como se para me tratar bem, eles tivessem que fingir que eu não tenho sangue índio e negro, junto com o branco.
Eu não faço a mínima ideia do que é ser uma raça. Eu sempre vi etnia como: o que eu sou geneticamente e o que eu sou na cabeça das pessoas. Nunca foi sobre identidade. E a Rachel me fez perceber que talvez eu me veja como branca dentro de um corpo moreno. Se ninguém tivesse falado que raça também é uma questão de se sentir, eu nunca teria pensado em como eu me sinto.
Claro que o motivo de eu me sentir assim é o racismo que sempre foi depositado em mim, como menina mórmon e como brasileira. Eu não pretendo fingir que sou branca, como a Rachel, eu sei que tem como melhorar esse aspecto em mim. Aceitar minhas cores, minhas formas, minha genética, minha textura, minha altura e considerar cada partezinha de mim como eu, além de, claro, entender que eu não vou mudar o sistema sozinha e eu vou continuar sendo atacada pelo resto da minha vida pela minha raça, por mais que não seja justo. Eu não quero ilusões.
Obrigada, Rachel, pela discussão.
Apesar desse meu questionamento estar favorecendo pessoas brancas no debate ou pelo menos, me apropriar dos argumentos do Morgan Freeman, eu não quero dar a entender de que concordo com a lógica do "se a gente colocar embaixo do tapete, talvez suma". Eu sempre sou favor de pessoas negras quando racismo está em discussão como em apropriação cultural, privilégio branco, colorismo, texturismo e outros tópicos anti-racistas. Mas é bom pensar: será que as pessoas (de todas as raças) estão com raiva da Rachel porque ela quer ser algo que todos rejeitam? Claro que a rejeição da negritude tem enbasamento histórico, eu não esperava algo diferente das pessoas. Afinal, fomos todos criados numa sociedade racista. Mas será que a rejeição à Rachel não significa algo mais profundo? É como se representasse atacar a negritude, mas sem precisar se preocupar se você está sendo racista, porque ela é branca. Então você pode rejeitar a negritude nela o quanto você quiser. Atacar ela, atacar os filhos dela, dizer que ela é louca por querer ter cabelo crespo, por gostar de negritude e lutar por ela (por mais que ela não seja negra). Além do caso dela ser completamente regado a racismo, não contra ela, mas contra o que ela faz; também teve muita misoginia envolvida. Pessoas falando que ela era louca, tinha fetishes de raça e que ela era mentirosa, sendo que não parece que ela mentiu nenhuma vez. Ela chamava de pai o homem que apoiou ela em vez do abusor e progenitor dela, foi literalmente isso.
Quanto à identificação dela, ela é branca. Eu não acho que ela seja trans-racial ou seja lá o que ela quer que as pessoas a chamem. Mas eu também não sei o porquê de eu achar isso.
Eu sou misturada. Os traços mais presentes em mim são nativos peruanos, brancos e negros, respectivamente. Eu nasci no Brasil e sempre fui classe-média alta. As pessoas me leem como branca por mais que obviamente eu não seja branca. É como se para me tratar bem, eles tivessem que fingir que eu não tenho sangue índio e negro, junto com o branco.
Eu não faço a mínima ideia do que é ser uma raça. Eu sempre vi etnia como: o que eu sou geneticamente e o que eu sou na cabeça das pessoas. Nunca foi sobre identidade. E a Rachel me fez perceber que talvez eu me veja como branca dentro de um corpo moreno. Se ninguém tivesse falado que raça também é uma questão de se sentir, eu nunca teria pensado em como eu me sinto.
Claro que o motivo de eu me sentir assim é o racismo que sempre foi depositado em mim, como menina mórmon e como brasileira. Eu não pretendo fingir que sou branca, como a Rachel, eu sei que tem como melhorar esse aspecto em mim. Aceitar minhas cores, minhas formas, minha genética, minha textura, minha altura e considerar cada partezinha de mim como eu, além de, claro, entender que eu não vou mudar o sistema sozinha e eu vou continuar sendo atacada pelo resto da minha vida pela minha raça, por mais que não seja justo. Eu não quero ilusões.
Obrigada, Rachel, pela discussão.
Comentários
Postar um comentário