4 Razões Porquê Supergirl Me Dá Ar aos Pulmões (Lia)

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O seguinte artigo foi escrito por uma pessoa com autismo descrevendo um dos seus interesses especiais. Se você não está pronto para um monólogo extremamente longo e minucioso, eu sugiro que você não leia.


Tudo começou em 2014, o ano em que eu descobri (em palavras) que eu sou lésbica. Deprimida, eu ficava bastante no Netflix. Passando as sugestões, me deparei com uma pessoa vestida de Superman, mas com saia de líder de torcida. Era uma das milhares de sugestões na fila de "séries da TV americana". E eu só consegui pensar "por que essa membro da juventude hitlerista tá na capa de uma propaganda feminista?". O contraste das duas ideias na minha cabeça causava curiosidade. Cliquei e depois de menos de vinte minutos rodados, o amigo (Winn) da personagem principal afirmou que ela era lésbica e concluiu que era por esse motivo que ela não gostava dele (como se nenhuma mulher hétero resistisse ao Winn). Fiquei bastante incomodada, mas quando a Kara gritou "I'm not gay!" em resposta, foi a razão para eu desligar a televisão. Eu chorei durante algum tempo e continuei com minha vida triste de ínicio da adolescência.

Acontece que eu não fui a única que odiou o primeiro episódio. 

Grande parte das pessoas parou de assistir no piloto, o que é comum. Mas muitas pessoas desistiram do seriado. Acontece que só é no quarto episódio onde os sentimentos são explorados e a conexão acontece. Eu acredito que teria sido muito melhor para a série comprimir os três primeiros episódios em um e continuar a partir do quarto. Mas a audiência já estava perdida, pelo menos a americana.

Mal sabiam os produtores que três temporadas depois, a audiência seria majoritariamente LGBT, feminina e latinx; fugindo da ideia esperada de uma audiência geek, masculina e branca.  

Em 2018, eu comecei a ver vídeos que falavam mal de Supergirl. Acontece que eu estava numa fase centrista (nome chique para conservador raivoso) e se você já foi centrista, você sabe do que eu estou falando: vídeos de quarenta minutos sobre mídias da 'esquerda autoritária'. Mas os argumentos não sustentavam, e a minha curiosidade não passava. Na minha mente, Supergirl e homossexualidade andavam juntos. Por mais que eu só tivesse visto uma cena que falava sobre isso, (inclusive dizendo que a principal não era LGBT), parecia que tinha mais aí. Então, eu vi um, dois, cinco vídeos de Supergirl, até que o algorítmo me abençoou.




"Are They Gay? - Kara Danvers and Lena Luthor (Supercorp)"


Por mais que eu fosse centrista, agora, o contexto era diferente. Eu já tinha raspado a cabeça, tacado piercings na cara e saído do armário pra quem eu me importava. Meu gay é permitido, meu gay é desejado. Eu clico e meus olhos não acreditam. Oh, que gay. Bissexualidade intensa, alourado com lesbianismo e adicionado temperos LGBT muito bem escolhidos!


A partir desse vídeo de meia hora que falava sobre um ship lésbico baseado em queerbaiting, fazendo o YouTuber em questão ficar com raiva (porque eles estavam fazendo uma enganação com os fãs), eu fui assistir à reações de Supergirl e faleci.

A Hunter que todos conheciam não existia mais. Agora, nascia Hunter 2.0, por dois motivos: a mudança de vídeos causou uma mudança de sugestões e eu finalmente adentrei o esquerdismo dentro do YouTube (breadtube, para os íntimos), enquanto, simultaneamente, Supergirl me fez mais confiante que nunca na minha sexualidade.

Razão 1 | Chega manteiga derrete™

Elenco de destruir o coração


Eu fui avisada, mas mesmo assim eu brinquei com fogo. 80% do elenco é feminino. Agora, deixe-me te entregar a informação de que essa série é CW, conhecida por fazer elencos apenas com pessoas gostosas. Aqui, por exemplo, está o amor da minha vida: a super heroína treinee na Supergirl.




Da atriz principal à atriz que faz a namorada da irmã da personagem principal na segunda temporada, essas mulheres são deusas encarnadas.




Só pra completar a ideia, olha isso:


Na minha mente não existe coisa menos sexualizável que pés. Acho essa atração muito louca, mas até ontem gostar de mulheres era estranho, então eu vou ficar quieta. Talvez amanhã alguém vai falar que ama pés em um blog aleatório e eu juro que eu vou ser a primeira a escrever comentários de puro amor e mandar nudes dos meus dedões.

That escalated quickly

Mas você entendeu. Esse elenco é a razão das pessoas que gostam de pés terem orgasmos múltiplos! Atrizes não só talentosas, mas inspiradoras. 

Estou emocionada.

Eu não entendo porque lésbicas gostam das mesmas mulheres, mas cá estamos.


Razão 2 | Elas que lutem™

Conotações políticas intensas

Adoro paralelos políticos com todas as minhas forças. Fico filosofando muito tempo por causa deles. E com Supergirl os paralelos políticos tendem a ser bem óbvios. Ou seja, em vez de pensar no que eles querem dizer com tal paralelo, tem como viajar sobre como funciona a mente dos produtores e escritores por horas. É muito mais divertido.

Por exemplo, de uma posição 'centrista', eles passaram para esquerdistas em poucas temporadas. Uma das mudanças de posições políticas foi demonstrada na quarta temporada pelo storyline de um pai de família conservador que se transformou em um fascista porque se sentiu traído pelo governo; e começou a ativamente protestar contra direitos a minorias. Ganhando influência nacional por meio do conservadorismo flexível, ele cativa a população rapidamente.

Muitos centristas e conservadores não gostaram de tanto screen time ter sido gasto explicando a vida do vilão, que só por ser fascista já teria efetivamente causado raiva na audiência. Eu acredito que pessoas com essas posições políticas não se interessaram no desenvolvimento do vilão, em parte, por ter sido uma crítica a repuplicanos (em sua maioria compostos de neocentristas e conservadores).


Nessa cena, Lena Luthor e James Olsen (sim, nessa versão ele é um bofe) falam com um jornalista centrista em uma coletiva de imprensa.






Mas a história do vilão cativou a audiência de esquerda porque essa curiosidade de entender fascismo é muito comum entre comunistas e anarquistas. O que leva alguém a ser fascista? Quais são as características de um regime desse tipo? Quão próximo o conservadorismo está do fascismo? Quais são os métodos usados para convencer as massas? O que o governo deveria estar fazendo para que essas pessoas se sentissem seguras em vez de atacadas? O Agent Liberty era praticamente um estudo de caso. Ele usa jargões, ataca minorias e pede perdão sem querer pedir perdão. 




É aí que as conjecturas sobre as crenças dos criadores começam a pipocar. Na mente do número crescente de interessados por política, como eu, saímos pesquisando onde dava. Pessoas de todos os lugares do espectro político estavam caçando informações e perguntando se outros concordavam com a posição de Supergirl nesse e naquele aspecto. Mas é uma opinião extremamente comum entre os fãs de que as conotações políticas mudaram da primeira temporada pra cá.

Teve um outro vilão na quarta temporada, que apesar de carismático, não conseguiu fazer sucesso mesmo. Machester Black estava lá para representar os antifa e, possivelmente, um protestante de black lives matter.



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Infelizmente, as pessoas que idealizam esse seriado querem ser separados de antifas. Eu teria ficado irritada com essa representação escrota de militantes esquerdistas, se não fosse o fato de que ele ficou praticamente invisível. Nenhuma pessoa achou que o Manchester Black representasse uma pessoa real. Ele era a caricatura de um grupo a que o próprio seriado pertence. As críticas a ele eram muito fáceis de identificar como hipócritas, porque Supergirl e J'onn J'onzz faziam exatamente o que ele fazia: justiça com os punhos. A diferença é que o Machester não era poderoso como eles. Dando a entender de que o problema é que ele não é essencialmente bom, como eles são. E acreditar que algumas pessoas são essencialmente boas, como pessoas brancas, por exemplo, é bastante... como se chama... fascista.


Ou seja, eles ainda tem um certo caminho pela frente, e o maravilhoso disso é que não só grande parte do público está se desenvolvendo, mas também, dá uma sensação de evolução na série. Além de que existe tempo de sobra para os produtores e escritores chegarem numa posição política mais estável e, espero, mais apoiadora de militantes.




Razão 3 | Sai daqui, cachorro homofóbico

Representação LGBT de qualidade



Nessa série tem uma personagem trans hétero - Nia Nal - e duas personagens cis lésbicas - Alex Danvers e Kelly Olsen - em um elenco principal de oito personagens. E olha que eu estou considerando os fora do armário. Tem chances altas de outros três serem LGBT. Kara Zor-el ou Supergirl (bissexual), Lena Luthor (queer ou lésbica) e Brainiac (não-binário).


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Muitas representações não-binárias estão aparecendo por aí em forma de robôs (Janet em The Good Place e Brainiac em Supergirl).

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Ou, então, são metamorfos (Double Trouble em She-Ra, Charlie em Legends of Tomorrow e Xavin em Marvel Runaways), eu só espero que a gente chegue mais rápido ao ponto de fazer pessoas não-binárias na televisão

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Mas o Brainy nem está fora do armário, então, não é como se essa fosse uma crítica à Supergirl, mas sim às representações não-binárias em geral.

Muitos assuntos interessantes para a comunidade foram abordados de forma sincera. Um deles, apesar de ter sido bruto e um pouco inesperado, foi a irmã da Nia Nal ter dito que Nia não era uma mulher de verdade, logo depois que a irmã viu que os poderes passados de mulher para mulher na família delas iriam para a Nia.

Eu, particularmente, estava esperando algo mais baunilha pra essa personagem em específico. Ela transicionou bem cedo, tem apoio dos pais, apoio dos amigos e tem passabilidade cis, que apesar de não ser um elogio, é um privilégio. Ou seja, essa personagem parecia ter a vida que qualquer pessoa deveria ter, se quisesse. Foi um choque pra mim ver a irmã dela dizendo isso. E apesar de eu ter visto essa parte com maus olhos de primeira, depois eu amadureci para ela e vi que ela era efetiva.





Essa cena mostra que nem todas as pessoas vão nos apoiar, por mais que elas sejam da nossa família. E isso mostra a realidade de muitas pessoas não-héteros e não-cis, inclusive a minha. Mas não é só isso que faz essa cena rica. Ela faz as pessoas cis ficarem com raiva de pessoas transfóbicas que machucariam alguém como a Nia, um amor de mulher; faz elas não quererem se identificar com essa posição errada e babaca de considerar pessoas trans como falsas pessoas cis. A cena muda o status quo. Essa função dupla deveria estar em todas as representações de minorias: fazer a minoria se sentir abraçada e mostrar à maioria o que ela precisa melhorar, e agora.

Outras questões levantadas pela série é querer ou não ter filhos quando se é LGBT. Grande parte da história da Alex Danvers (irmã da Kara) é que o maior sonho dela é ser mãe e ela luta por isso. Considerando que ser mãe também é o meu maior sonho e eu também sou sapatônica, eu totalmente entendo ela. Ela ainda é masculina! Gente, temos muito em comum, nem tinha notado.



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A Alex teve uma namorada na segunda temporada, a Maggie (Floriana Lima), que eu já coloquei fotos dela na primeira razão. Alex deu a louca e pediu a Maggie em namoro logo depois de ela ter descoberto a própria sexualidade (sim, ela é rápida). Nessa quinta temporada, ela tem uma namorada chamada Kelly Olsen, que é irmã do James. Devo dizer que é bem raro os casais lésbicos da tevê serem compostos por pessoas não-brancas ou serem interraciais. E a Alex teve duas namoradas não brancas: Maggie é latina e a Kelly, negra.

Razão 4 | O Cão é muito bem articulado

Queerbaiting

Como eu já falei em outros artigos, minha vida é livre de coisas complicadas e eu acho que é justamente por isso que a minha mente e minhas fantasias são lotadas de drama. Quer fazer uma série que me cative? Me dê traição, me dê conflitos internos, me dê reações chocantes, me dê olhares de soslaio, me dê confidência, me dê sensualidade reprimida. Eu sinto muitíssimo, caros milititantes LGBT, mas eu tenho algo a admitir. EU AMO QUEERBAITING, quanto mais, melhor.

A temporada cinco (desse ano) está sendo dirigida pela Melissa Benoist, que é a atriz que faz a Supergirl. A história é tudo sobre Kara e Lena. Principalmente sobre como a Lena se sente atraída pela Kara não ter contado a verdade sobre ela ser lésbica Supergirl. Basicamente, é a história delas duas se amando odiando de mais para serem amigas. E como a Lena só apareceu na segunda temporada, como parte do elenco secundário, as memórias dela e os sentimentos dela são muito mais interessantes que os da Supergirl, que todos já conhecem.

Por causa da minha memória do piloto, eu tinha essa série extremamente conectada com a ideia de homossexualidade. Eu estava em uma época de negar a mim mesma, tentando com todas as minhas forças deixar de ser lésbica. E quando a Supergirl falou "I'm not gay!", uma mémoria foi guardada. O que ela gritou era o que eu queria gritar, o medo dela era o meu medo. E em 2018, os meus sentimentos já eram diferentes. Eu estava confiante, diferente! Com os vídeos sugeridos, as memórias viaram a tona. 

"Essa cena me fez chorar em 2014, mas não agora. Eu não sou mais essa pessoa. Se a personagem principal da série conseguiu sair dessa, talvez eu também consiga superar todos os meus sentimentos de inadequação". E aí quando eu vi aquela thumbnail arco-íris com a Kara e a Lena, eu fiquei completamente chocada. Ela tinha conseguido! 

Ou não. 

A série ainda estava acontecendo e a Kara ainda não tinha saído do armário. Quando eu vi isso, eu olhei pra mim mesma. Pude reconhecer que por mais que eu estivesse num estado mais saudável, eu ainda não estava pronta pra um relacionamento ou mesmo pra sair do armário pra todo mundo. Eu sinto que hoje, em 2020, estou melhor que em 2018, mas ainda morro de medo quando penso em algo romântico com alguém. 

Ou seja, eu continuei assistindo à Supergirl. E cresci junto da Kara nesse meio-tempo. Eu e Kara estamos na mesma fase no desenvolvimento da sexualidade. Precisamos focar em nós mesmas porque, por enquanto, um romance não seria saudável. 

Pra grande parte da audiência LGBT, o queerbaiting que a série apresenta é enfuriante, mas angsty. Pra mim, é puro prazer. Não importa se a Kara não ficar com a Lena, a Kara é bissexual e a Lena é queer. Pra mim, essas coisas são fatos, por mais que não sejam canon. E se elas ficarem juntas, isso quer dizer que eu vou estar pronta pra um relacionamento. Eu não sei porquê humanos tem essa capacidade de encontrar coincidências e segui-las como se fosse evangelho, mas eu sei que se a Kara acabar com alguém é porque eu também posso. E se ela não acabar com ninguém, eu sei que tenho ainda algumas coisas a mudar. É estranho, eu sei. Quem não faz coisas esquisitas quando tá assutado que jogue a primeira pedra.

Enfim, essas são as razões porquê eu amo essa série. Se você leu até aqui, você provavelmente gosta dessa série também. Por que você faria uma coisa dessas? Deixa nos comentários.










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