Uma Distópica Adolescência Mórmon (Lia, Hunter e Giulia)

Resumindo, em poucas palavras como é a vivência mórmon, eu diria (limpa garganta): é um saco. Mas você não está aqui para ler o resumo de tudo isso, aliás, você não está aqui para nada porque ninguém iria ler um blog em 2020. Mas, mesmo que não exista pessoas lendo esse blog, eu ainda quero ser sincera, mesmo que seja para mim mesma. Até meus diários estão inundados com quem eu quero ser e não com quem eu sou e isso me traz uma tristeza imensa. Eu não quero me envergonhar de mim mesma, já têm muitas pessoas com vergonha de mim, por que eu faria isso comigo mesma?

Hoje, eu vou ser completa sobre minha experiência como uma menina de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Só digo "menina" porque eu fui criada com todas as bases de uma educação feminina e jovem dessa religião. Eu nunca cheguei a ser considerada mulher por essa seita, eu só vivi o que crianças e jovens experienciam lá, portanto nunca saberei como é ser uma mulher lá dentro.

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Começando pelo ponto de vista da seita, eu fui abençoada como bebê na frente da comunidade. Mas a minha memória mais antiga aconteceu um ano depois, ao ficar com outras crianças e escutar a música "Sou Um Filho De Deus". Me lembro de parar o que eu estava fazendo e me perguntar o que significa galardão. Outra memória dessa tenra idade aconteceu quando outro bebê me pediu um dos meus biscoitos recheados, mas aquele era o último do pacote. Eu queria o biscoito também, então, eu quebrei-o com esforço (porque eu queria que ele fosse quebrado bem no meio) e entreguei a metade para a criança que pediu. Pronta para comer minha parte do biscoito, a professora me interrompeu e contou que era assim que "nós deveríamos ser". Essa memória foi guardada em mim com muita satisfação, mas hoje ela me incomoda profundamente.

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O que eu fiz não era bondoso e nem egoísta. Eu dei metade do biscoito porque me pediram e manti a outra metade porque eu a queria. Era um acordo, que envolvia medo de conflito, resultando em uma aparente igualdade. Ou seja, eu não fui uma criança boa, eu fui uma criança. A parte que mais me incomodou foi o fato de ela ter dito "nós", como em "membros da Igreja" ou "cristãos". Ela colocou uma linha de distinção entre a ação de uma criança "boa" e outras crianças "más", como se quando fôssemos maus, não seríamos mais parte do grupo, que incluia minha família e muitos dos meus amigos. Essa ação de separar 'nós' de 'eles' é considerado uma das formas de reconhecer uma seita no BITE model, na parte de Thought Control, primeiro item.



Mas não era só a distinção entre os "de dentro" e os "de fora" que eram colocados de forma binária, tudo era. E isso leva a repressão de pensamentos críticos e impede o entendimento de coisas que não se encaixam nessa visão de preto vs. branco. Eu via gênero como um binário, raças como um binário, ideologias como um binário. Se um conceito não existia em função de opor outro conceito, ele não fazia nenhum sentido. Afinal, tudo existe para uma guerra. E se o errado 'vencia', eu ficava confusa. Como Deus permitia tal coisa?

Tudo isso foi extremamente confuso para mim, que tem uma deficiência não visível, que não tem raça definida, que não se conforma a padrões de gênero e não é heterossexual.

Várias outras memórias aconteceram em contextos religiosos, muito envolvendo repressão de diversidade sexual. Por exemplo, mormonismo é uma das únicas igrejas cristãs que considera assexualidade como algo errado: O casamento é obrigatório para a exaltação. Além de que eles também acreditam que espíritos tem gênero e esse gênero sempre corresponde com o sexo biológico. Negando literalmente todas as letras da comunidade LGBTQIA.


Meus pais me deram a educação mais mórmon possível, provavelmente porque eles não confiavam em si mesmos, como a Igreja indica. Quando eu digo que minha educação foi baseada em princípios religiosos, eu não estou brincando: minha família foi de espancar os filhos (porque a Igreja pedia) para não dar nenhuma palmada porque a Igreja mudou de opinião. E esse foi o principal fator para que eu soubesse que meus pais nunca iriam aprovar da minha sexualidade: se a Igreja não aprova, eles não aprovariam.

Desde que descobri que sexo existia (mais ou menos aos 9) até os 12 anos de idade, eu achava que pessoas da Igreja não faziam sexo. Eu achava que sexo era errado em toda e qualquer situação e que as crianças nascidas das famílias da Igreja vinham ao mundo como Jesus veio: por meio de uma bênção, que faziam as mulheres ficarem grávidas e não precisarem que homens entrem dentro delas. Eu sempre interpretei o pênis como uma faca, ferindo mulheres que não desejavam estar ali. Afinal, se eu achava que seria a pior coisa que pode acontecer com uma mulher, então, todas as mulheres deveriam concordar comigo.

Considerando que a minha romanticidade sempre foi muito desperta, eu notei que meu desejo por mulheres não era aceito muito cedo. E aos 13 anos quando me ensinaram que sexo é algo normal (e esperado) eu, infelizmente, descobri um life hack para meu corpo: quanto menos eu comia, menos libido eu sentia. Entre várias experiências de tortura e anorexia ao longo de anos, isso me levou a seis dias sem comer em um jejum religioso, exigindo que Deus me fizesse hétero. Testar Deus e pedir da forma mais extrema que eu fisicamente conseguisse deu início ao meu ateísmo. Deus não estava lá... Graças ao meu corpo forte e saudável, nada de horrível aconteceu comigo.

Decidi mudar de escola quando saí do armário para os meus pais e busquei ajuda psicológica da melhor terapeuta da cidade. Eu não saberia se a psicóloga iria me fazer uma cura gay ou se ela me ajudaria a me aceitar. Pra falar a verdade, não sei exatamente o que aconteceu até hoje naquelas sessões. O que eu sei é que eu comecei a desconfiar da minha psicóloga, de forma que nem a minha personalidade religiosa do passado nem a anarquista do futuro conseguia/consegue entender as intenções daquela figura. Com o trauma que a psicologia me causou, passei a confiar mais em mim mesma, em vez da sociedade, da família, da Igreja ou da ciência.

Um aspecto que sempre foi presente na Igreja é a definição de gênero e o quão específica ela consegue ser. A partir dos 12 anos na educação física e na Igreja, eu comecei a ficar com as meninas, e os meninos foram pra longe. O que foi ótimo pra mim, mas péssimo para o conteúdo das aulas. O sexismo fica mais intenso. Garotas, na escola, fingiam cólicas e, na Igreja, fingiam interesse. A Igreja constantemente falava sobre que tipo de filhas, esposas e mães deveríamos ser. Como poderíamos apoiar o sacerdócio (palavra chique pra homens) e com que atitude, com que roupas, com que virgindade louvar a Deus.

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(só pra você ver o quão hétero esse boyzinho é)

Foi aí que as coisas ficaram difíceis. A pressão na escola era constante para ser a mais inteligente, mais bonita, mais atrevida. E na Igreja, a mais virtuosa, mais submissa e mais invisível. Tanto a escola quanto a Igreja exerciam mais força do que o meu corpo conseguia suportar. E os dois juntos me mataram de vez. Eu chorava todos os dias, dormia em excesso, não comia e minha família não entendia. Minha mãe tentava, mas não conseguia.

A única coisa de que me arrependo foi de não ter saído da Igreja mais cedo. Pelo menos, eu saí cedo o bastante para não ter ido para a missão, jogando meu livre-arbítrio no lixo por dois anos, e não ter feito nenhuma promessa assustadora no templo mórmon. Minha irmã quando saiu de um desses convênios me contou que se ela não soubesse que a Igreja era verdadeira, ela teria se afastado logo depois de seja lá o que aconteceu lá dentro. Eu agradeço todos os dias por não precisar ter passado por essas experiências traumáticas. Eu agradeço por não ter casado com um homem, eu agradeço por não ter casado antes dos 24, eu agradeço por não ter tido filhos sem ter planejado, eu agradeço por eu ter saído antes que fosse tarde de mais.

O curioso é que essa realidade paralela é divertida de imaginar, mas horrível de experimentar. Como qualquer livro, é curioso se colocar no papel da personagem, principalmente se você colocar alguns elementos interessantes na mistura. Por exemplo, eu não preciso engordar e ficar diabética após meu terceiro filho (como aconteceria de verdade se eu tivesse filhos da minha barriga, de acordo com padrões genéticos na minha família), eu posso imaginar que eu ficaria gostosa até os quarenta e posso também imaginar que eu teria uma amante! Todas as perguntas e questionamentos à religião ficariam mais intensos e com muitos mais riscos. Eu posso imaginar que eu seria uma dona de casa, com toda uma comunidade de amigas religiosas. Poderia ter dramas nas Igrejas, corrupções, até assassinatos! Piorar algumas coisinhas e melhorar outras tantas pra que a história ficasse imaginável de um jeito legal e de certa forma, excitante. Mas não seria isso que aconteceria na vida real. Talvez eu nem chegasse a idade adulta se eu me negasse e guardasse minha sexualidade numa caixa.

A imaginação é muito mais legal que a vida real. É por isso que eu tento manter minha vida real a mais simples possível e minha vida imaginária a mais rica possível, não tem como viver um drama na vida real: não é sustentável. O motivo pelo qual eu chego a essa conclusão agora é porque eu dependia desse tipo de drama quando eu era criança. Eu me rebelava apenas o bastante para causar um rebuliço. Agora, eu me rebelo, claro. Mas o desejo primário é fazer o que eu quero, matar a vontade, experimentar. Então, eu deixo que os adultos façam o trabalho de rotular o que faço como 'ofensivo a Deus' e deixo que eles gritem comigo, para que alivem seus ânimos e encontrem um lugar mental mais saudável. Meus tempos de drama como gasolina acabaram mais ou menos no mesmo tempo que minha fé acabou.





Comentários

  1. Mas, então, toda religião é uma seita. Super normal um adolescente de 12 anos achar que ninguém faz sexo

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