Eu Não Sou Um Homem (Lia)

Como eu sei que aquilo foi traumático? Porque assim eu me sinto. Eu não tenho treino nenhum em Psicologia e não faço a mínima ideia do que se encaixaria como algo traumático, mas foi assim que aconteceu. Chegando lá, eu não sabia se ela me faria uma cura gay ou se ela me ajudaria aceitar minha sexualidade. Mesmo que até hoje eu não saiba o que aconteceu naquelas sessões, eu considero que aquilo foi abuso psicológico e um grande trauma na minha vida.

Entre as coisas que considero traumático, ela me fez pensar que eu poderia ser um homem, e como fui designada menina ao nascimento, eu seria trans. Ela constantemente me pedia para eu desenhar imagens de mim mesma. E como eu tenho seios pequenos e sou bem masculina, os desenhos de mim mesma ficavam bem masculinos. Sendo assim, ela me perguntva coisas do tipo: "como eu me sentia me vendo pelada no espelho?" e "como eu me senti quando seus seios começaram a crescer?" e é claro que para as duas perguntas eu respondia "estranha" porque olhar meu corpo no espelho sempre foi um desafio devido a anorexia; e na segunda pergunta, eu realmente me sentia disfórica com meus seios crescendo.

Eu me lembro que aos 11 anos, minha mãe disse para eu tomar cuidado enquanto eu brincava porque se eu batesse meus seios muito forte em algum lugar, eles iriam parar de crescer. Sendo assim, eu passei aquela tarde batendo meus seios na parede, esperando que eles não crescessem.

Hoje, eu sei que eu sou uma mulher ou algo próximo disso e sei que meus seios me fazem desconfortável, mas não sei se eu vejo eles como algo relacionado a gênero. Esse é o ponto. Eu não os vejo como femininos ou masculinos ou feios ou algo do tipo, eu os vejo como inúteis, soltos, pendentes, estranhos. Mas eu não sabia na época como conciliar os sentimentos que eu tinha com meus seios com minha identidade bem próxima do cisgênero, então eu só respondia "estranha" e ela perguntava "por quê?" e eu dizia "não sei". Ela contava que tinha duas pacientes trans e que uma delas começou a transição hormonal e como pessoas trans são meu interesse especial, eu ficava extremamente interessada sobre como seria a transição delas, que mudanças aconteciam. Devo ter dado pinta de que eu queria transicionar porque minha psicóloga falava muito sobre gênero, o que me fazia bastante interessada.


Durante algumas sessões, eu tinha dito a ela que meu humor muda constantemente e que eu não entendia o motivo, só era muito extremo. Eu chorava o tempo todo, mas às vezes, eu voltava ao meu humor expansivo e alegre. Ela me mandou ir para um endocrinologista para checar se minhas variações de humor aconteciam por motivos hormonais "antes de supormos qualquer coisa". Dando a entender de que bipolaridade poderia ser o diagnóstico.

Fui ao endocrinologista que ela sugeriu. Ele me pesou, me fez perguntas e eu não me lembro mais de que exames aconteceram. É preciso entender que como quase todos os eventos traumáticos da minha vida, eu tenho muitas poucas memórias dessa cena. O que eu me lembro foi de ele pedindo que minha mãe saísse da sala para conversar comigo. Minha mãe me olhou com aquela cara de "se ele tentar te estuprar, grita" e ela fechou a porta. O médico me perguntou coisas como "como você quer que eu te chame?" e eu disse meu nome de nascimento, coisa que surpreendeu ele e, por sua vez, me surpreendeu mais ainda. Depois de algumas tentativas falhas de me tirar informações que não entendi o motivo, ele tenta algo novo: "se você precisar, eu ajudo você a convencer sua mãe de que esse tratamento é necessário, só para completar a sua psicóloga." E foi aí que eu entendi que a minha consulta com ele era um tipo de check-up para começar a transição!

Se isso tivesse acontecido hoje, eu teria dado uma gargalhada e teria dito que aquilo foi um engano e que eu sou uma mulher cis ou quase. Mas naquele momento da minha vida, eu estava questionando meu gênero constantemente (mais que hoje). Eu ainda achava que gostar de mulheres era pecado, eu ainda orava pra que eu conseguisse transar com um homem quando chegasse a hora, eu chorava na escola, eu não tinha amigos, todas as pessoas que chegavam perto de mim se assustavam com minhas variações de humor que acabavam sendo resultado de eu ter sido criada numa seita homofóbica e por eu ser autista. Aparentemente bipolaridade nunca foi parte disso.

Eu só olhei pra ele com pura incredulidade e falei "O senhor precisa que eu assine alguma coisa ou eu já posso ir?". Eu saí da sala, minha mãe perguntou se estava tudo bem e eu chorei do carro até em casa, mas avisei a minhamãe que nada como estupro tinha acontecido, o que eu não sabia era que outro tipo de trauma na linha. Quando chegamos em casa, eu peguei minha bicicleta e pedalei até a ciclovia atrás da minha casa. Comecei a acelerar paralelamente a linha do trem, fingindo que eu mesma representava o maquinário em movimento e quando eu cheguei a velocidade máxima e cansaço absoluto, eu parei a bicicleta e gritei "EU SOU O QUÊ?" já quase sem fôlego. A resposta veio intensamente na minha cabeça: "você não é um homem". Resposta essa que me fez chorar, mas com um choro mais útil, mas sucinto, que me fez me sentir bem no final. Fui andando com a minha bicicleta do lado até em casa e dormi até a manhã seguinte.

Claro que na época, eu considerei essa resposta como uma resposta divina, mas hoje, eu vejo ela como uma repetição da frase que meu pai falava continuamente para mim. Ele dizia que eu estava negando o meu espírito feminino ao aceitar meu lesbianismo. "Você não é um homem" é uma frase que ele poderia ter dito para mim, mas eu não me lembrava. Na época, a carapuça serviu e eu fui a umas poucas consultas com a psicóloga depois disso, até que o asco e o trauma começaram a ser fortes de mais para eu aguentar. Na última consulta, eu disse que eu não iria mais vir e ela disse: "mas só estávamos começando o tratamento", eu entendi a frase como em "começando a transição". O que para pessoas trans, seria um tratamento, mas não para mim. Pelo menos, não com testosterona. Se fôssemos para a sala de cirurgia tirar meus seios, eu fingiria ser um homem trans até a recuperação da cirurgia. Mas como geralmente se inicia com hormônios, eu nunca faria esse tratamento. Se tem uma coisa que eu desprezo é testosterona, em todos os sentidos.

Essa experiência, me fez me envolver com um grupo nojento chamado "Feminismo Radical Trans-Excludente" que em inglês seria TERF ou FART (o que é uma ótima sigla, já que fart é peido). Enfim, não me orgulho de ter me envolvido com pessoas tão vis que ativamente tentam tirar direitos de uma minoria, principalmente uma minoria que me eu sentia tão empática antes do acontecido e uma minoria tão atacada. Graças a umx YouTuber maravilhosx chamadx Ash Hardell, eu pude entender mais sobre pessoas trans, identidades variadas e pessoas não-binárias, depois, por meio do algoritmo que me levou para outros YouTubers, como reconhecer TERFs e fascistas. Me envolvi com feminismo interseccional e a partir daí tudo foi flores, até que o meu vício bateu na porta e eu tive que focar em outros elefantes na sala.



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