Por Que Fazer Jejum de YouTube?

Eu tenho a firme crença de que todos os vícios quando são evitados passam por abstinência. Portanto, eu posso reclamar do meu vício de YouTube o quanto eu quiser.

O que é a vida se não uma reclamação constante do que não se controla?

Mas existem coisas a se considerar antes de reclamar da abstinência: a primeira coisa é que o YouTube salvou minha vida.

Eu fui criada numa religião de alta demanda (palavra chique pra seita), fui educada num colégio que reprimia diversidade e cresci numa família que desaprovava de qualquer atividade fora do conservador. Eu sei, eu sou a sapatão mais sortuda que você já conheceu.

Enfim, o YouTube me mostrou mulheres lésbicas felizes que viviam vidas saudáveis, tinham parceiras e apoio dos pais. Parecia mágica!... e foi o que me impediu de um suicídio na adolescência, com o qual eu tanto flertava aos 16/17 anos e estaria determinada em fazer se Deus não me transformasse em hétero. Descobri que até hoje esse desejo existe em mim, mas isso é para outras postagens.

Foi no YouTube que eu descobri que a minha história era um clichê. É a clássica história de um homossexual cristão. Acontece que ninguém vive num vácuo e vamos sim ser levados socialmente a fazer certas coisas. E aí, me vieram forças (que eu não sabia que existiam) para não ser parte desses índices de suícidio. Saí do armário para os meus pais, mudei de escola, raspei a cabeça, taquei um monte de piercings na minha cara e fui pra igreja de preto. Apesar de assustados com meu novo look, ninguém na Igreja imaginava que aquele seria o meu último domingo lá. Era um luto para Deus, eu o havia matado.

O YouTube me ensinou sobre ateísmo, feminismo, pessoas trans, veganismo, anarquismo e comunismo. Além de todas as lições sobre como me aceitar, me respeitar, não me torturar e não agir como meus pais agiram - parar o ciclo de "merda absorvida, merda ensinada". O YouTube me fez quem eu sou hoje, mas eu literalmente cheguei ao fundo daquela rede social. Eu vejo (ou via) canais com 20 incritos, ficava horas e horas caçando por um vídeo que me faria tão bem quanto os do ínicio da minha experiência com o YouTube. Minha cabeça tostava depois das 4 horas diárias que eu passava naquele site.

E não é o primeiro vício que eu já tive. Apesar de eu ser uma boa menina cristã, já tive minhas fases dark, com vício de televisão. Dos 4 aos 12 anos de idade. Ou seja, o vício em audiovisual está na minha mente de forma profunda.

Eu basicamente não sei quem eu sou sem assistir algo por quatro horas diárias. E apesar de isso ter sido fundamental para meu desenvolvimento social (eu tenho autismo e entendo emoções melhor por meio de personagens), eu agora não tenho mais medo de saber quem é essa pessoa enterrada na minha psique, soterrada por exigências arbitrárias. Eu quero conhecê-la.

Portanto, não só eu cortei YouTube, mas também Netflix e TV.

P.S.: Se você está se perguntando... não, eu não cortei cinema ou museus que se usem de mídias audiovisuais. E, sim, eu tenho excessões: documentários (já planejados previamente) e Supergirl (a série que me dá ar aos pulmões).









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